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Antero Greco
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Derrota geral

Veja que cenário bonito pra quem gosta de futebol: o Palmeiras anda com o astral nas alturas, por causa da tonelada de contratações para a temporada e a perspectiva de ano repleto de alegria. O Corinthians empolgou-se, após a surra aplicada no Once Caldas e a vaga quase certa na Libertadores. Soma-se a isso a rivalidade centenária e há ingredientes pra lá de suculentos para clássico empolgante no domingo num palco digno da história, o novo Palestra Itália.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2015 | 02h04

Bom até aqui é o mundo ideal, que até algum tempo atrás era o real, rotineiro. Daí vem a vida como ela é e eis que ressurge o fantasma da Torcida Única para o dérbi paulista. O Ministério Público, com apoio discreto da PM, chegou à conclusão de que existem indícios suficientes para temer confrontos entre torcidas. Por isso, recomendou que apenas simpatizantes do mandante ocupem as arquibancadas do belíssimo estádio na Pompeia. Os demais que vejam pela televisão. A sugestão veio acompanhada da devida ameaça de processos caso os dois clubes e a FPF resolvam descumpri-la.

A preocupação com o bem-estar de cidadãos pacatos sempre é saudável. Todos que temos boa vontade e não buscamos nada além do divertimento queremos segurança nas praças esportivas, rebatizadas com o nome de arenas. E não só lá, evidentemente.

Ao mesmo tempo, a imposição de Torcida Única é o reconhecimento do Estado da impotência para assegurar direito básico dos que confiam em sua tutela. As autoridades subscrevem, dessa maneira, a incapacidade para colocar sob controle, senão para extirpar, a raiz do mal. Em resumo, derrota da sociedade e vitória dos arruaceiros.

As autoridades detectaram germe de conflitos perigosos em trocas de mensagens e ameaças postadas por bandos em redes sociais. Parabéns para os serviços de inteligência e prevenção que vasculharam os canais de internet em busca de informações. Imagina-se que, em seguida, houve rastreamento para chegar à origem dos comentários.

Mas o que se esperava, como conclusão, era uma ação conjunta, bem coordenada para desbaratar terroristas virtuais. A surpresa os deixaria abalados. Como reforço, um papo olho no olho com os chefes das principais organizadas, com a advertência de que eles - e não os clubes ou FPF - seriam responsabilizados civil e criminalmente por qualquer confusão criada por associados. Que controlem suas tropas (!).

Não subestimo a capacidade das forças da ordem. Tenho certeza de que possuem gente treinada para pulverizar focos de tensão. Só não consigo entender - e isso há décadas - o porquê de tanta dificuldade para limpar a área. Se, já nos idos dos anos 60 e 70, se combateu a guerrilha - com sucesso, na ótica então predominante -, que obstáculos existem hoje para descobrir quem são e onde estão os homens que se aproveitam do esporte para espalhar ódio, mortes e vendettas. Com tanta tecnologia à disposição.

Não me convence o papo de que Torcida Única já teve em Minas, na Argentina ou sei lá onde mais. Não importa: cada episódio desses foi um tapa na autoestima de quem não tem nada a ver com gangues. A imensa, esmagadora maioria de palmeirenses e corintianos só deseja curtir um joguinho de bola, tirar onda do rival, ter um momento de lazer.

Já há câmaras vigiando as casas e ruas, muros altos, aparato sofisticado nos condomínios, carros com a aberração do insulfilm ou blindagem, detectores de metais nos bancos, escoltas - enfim, medo e neura. Agora, negamos ao sujeito de boa fé também o prazer de ir ao campo?

Não estamos a inverter valores?

A sombra 2. Falei anteontem dos benefícios que uma sombra pode fazer a um jogador (no caso, a chegada de Aranha ao Palmeiras para a reserva de Prass). O São Paulo trouxe Centurión para o ataque, para brigar por vaga com Luis Fabiano, Alan Kardec e Pato. E não é que Pato despertou, com três gols no Capivariano? Tomara fique sempre acordado.

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