Desafios de um paulista em Mianmar

Marcos Falopa conta as dificuldades de dirigir a seleção local em 2007 e diz que escapou por pouco do ciclone

Giuliander Carpes, O Estadao de S.Paulo

08 de maio de 2008 | 00h00

"Você ainda vai viajar muito, menino." A frase do lendário treinador Otto Glória - que levou a seleção de Portugal ao 3º lugar na Copa de 1966 -, quando treinava a Portuguesa, em 79, foi dirigida ao então aspirante a técnico Marcos Falopa. Bom aluno, Falopa seguiu o conselho, comandou equipes do mundo todo (conta que já esteve em 103 países) e acabou na seleção de Mianmar em 2007. Tinha passagem marcada para voltar em 28 de abril, após treinar o Legião FC, de Brasília, mas por atraso nas negociações reagendou-a para o fim de maio. Escapou do que poderia ser a maior provação de sua vida: o ciclone que assolou o país na segunda-feira e deixou dezenas de milhares de mortos e desaparecidos.Falopa sobreviveu, mas não sabe o que pode ter acontecido com os jogadores do time e mesmo com as pessoas da Federação de Mianmar de Futebol. "Não consigo mais contato com ninguém. É impossível completar qualquer ligação telefônica", diz o treinador ao Estado. O ciclone não é a primeira dificuldade pela qual passa o viajado técnico de 59 anos, que chegou a Mianmar por indicação da Fifa. Falopa estava lá quando eclodiram, em agosto de 2007, manifestações por redemocratização e pelo fim da repressão - o país é governado por uma violenta junta militar há cerca de 20 anos, quando a ex-colônia inglesa ainda se chamava Birmânia. "Os jogadores vivem sob constante pressão psicológica", afirma. "Vivia com toque de recolher e já tive até de interceder com os generais para melhorarem a alimentação e os tratos ao pai de um atleta que estava preso."As sanções externas proíbem também a realização de amistosos no território de Mianmar. Falopa conta que preparar uma seleção sem fazer testes é tarefa dura. Nada que o "jeitinho brasileiro" não pudesse resolver. "Formávamos combinados locais e olhe lá...Tive de fazer das tripas o coração." E como fazer os jogadores - que pouco conheciam uma bola e só viram a primeira chuteira na seleção - jogarem competições profissionais? "Minha linguagem é a bola", explica. "Jogava a bola no campo e eles acabavam entendendo o que tinham de fazer." É verdade que Falopa utilizava uma tática especial: dava apelidos de jogadores brasileiros consagrados aos seus comandados. "Se era um cara com facilidade para fazer gols e era meio roliço, eu chamava de Ronaldo", brinca o treinador.Deu certo. A seleção de Mianmar chegou pela primeira vez na história a finais de campeonatos regionais da Ásia - jogou contra as equipes de Vietnã, Malásia e Tailândia, por exemplo. Lá virou ídolo. "Um jornal do país me elegeu o melhor treinador estrangeiro que já passou por lá. Me carregavam nos ombros na rua." Mas a tarefa é difícil de ser repetida. A ditadura que comanda Mianmar terá muito trabalho para reconstruir o pobre país e o futebol ficará em segundo plano. "Agora fiquei sem saber o que vai acontecer. Nunca visei o aspecto financeiro e sim os desafios da carreira", diz. "Mas a perspectiva de voltar é muito complicada." QUEM É ELENome: Marcos FalopaNascimento: 2/1/1949Local: São PauloCarreira: Técnico de futebol com formação pela Federação Italiana de Futebol. Trabalhou em diversas seleções, como Bahrein, Emirados Árabes, Camarões e África do Sul, além de vários clubes no Brasil e no exterior

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.