Daniel Smorigo/ASP South America
Daniel Smorigo/ASP South America

Desafios do surfe fora das ondas

Grande disputa, como a do Hang Loose Pro, em Fernando de Noronha, sem estrutura, exige complexa engenharia

Giuliander Carpes, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2011 | 00h00

FERNANDO DE NORONHA - Viajar a passeio para Fernando de Noronha já não é tarefa das mais simples. É preciso pagar taxas de proteção ambiental, custear voos pouco em conta e levar muito dinheiro para financiar a cara alimentação na ilha - todos os mantimentos chegam pelo porto, o que aumenta o preço de tudo. Imagine então fazer um grande campeonato de surfe com atletas de 13 países e cobertura jornalística dos mais variados veículos de imprensa numa praia belíssima, mas sem infraestrutura, onde o asfalto não chega, a eletricidade tampouco e ainda há um ponto de desova de tartarugas marinhas.

A realização do Hang Loose Pro, evento que só perde em importância para os 10 campeonatos do chamado circuito mundial, necessita de uma engenharia complexa. "As inúmeras licenças ambientais e os acordos com a administração da ilha já estão no nosso planejamento anual, mas a estrutura da praia a gente começa a montar no início do ano, um mês e meio antes de o primeiro surfista entrar na água", conta Alfio Lagnado, presidente da empresa que realiza o sonho de fazer um campeonato nas melhores e talvez mais remotas ondas do País há 11 anos e precisa da ajuda de 150 pessoas - pelo menos 10% são moradores de Fernando de Noronha. "Este campeonato requer uma verdadeira estratégia de guerra. Hoje até é mais fácil realizá-lo porque já temos o conhecimento. O primeiro ano, em 2000, foi, sem dúvida, uma aventura. Para se ter uma ideia, só havia cinco buggies na ilha inteira."

Um grande caminhão sai de São Paulo com todo o material para a montagem da estrutura do campeonato no início de janeiro. Quando chega a Natal, operários passam tudo para um navio, que demora mais de um dia para chegar a Fernando de Noronha. Do porto até a praia da Cacimba do Padre, é preciso dividir o material em veículos menores, já que é impossível que um caminhão entre na estreia e barrenta estrada que termina ao largo das famosas Pedras Gêmeas.

Quando acaba de ser montada por mais de uma dezena de funcionários, a estrutura que recebe o evento é limitada, muito menor do que a de um campeonato do circuito mundial como o que haverá na Barra da Tijuca, no Rio, em maio. Há apenas um palanque para os juízes e a organização. Não existe sala dos atletas e de imprensa na beira da praia.

Surfistas e jornalistas ficam embaixo de guarda-sóis. Reclamar é perda de tempo e não combina com a lógica do evento. "A estrutura é essa há anos e não há interesse em aumentar", comenta Alfio. "Faz parte de um acordo com o Ibama e o Tamar. Mais barracas poderiam causar desequilíbrio ambiental. Tudo é feito em palafitas e com material que não causa reflexo. Também nos comprometemos a terminar as baterias todos os dias até as 17 horas. Temos de respeitar a desova das tartarugas marinhas."

As limitações estruturais dificultam que o evento se torne uma etapa do circuito mundial. Mas a Associação dos Surfistas Profissionais (ASP) elevou o campeonato deste ano ao último patamar antes disso. A premiação de US$ 250 mil e os 6,5 mil pontos no ranking mundial para o campeão se tornaram atrativos suficientes para boa parte dos maiores surfistas do mundo - Adriano de Souza, Jadson André, C.J. e Damien Hobgood são alguns nomes que estão em Fernando de Noronha. Eles vivem uma semana fantástica totalmente envolvidos à natureza. É para ela que a Cacimba do Padre será devolvida a partir de segunda-feira, quando todo o processo toma o caminho de volta.

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