Descaramento

Na minha coluna da semana passada, bastante mal-humorado, eu escrevi que o futebol brasileiro atravessa uma das maiores crises criativas de sua história. Para mim, não restam dúvidas de que vivemos o momento menos empolgante, em termos de qualidade futebolística, desde o período terrível entre a nossa eliminação na Copa de 1986 e a estreia na Copa de 1994. Para minha surpresa, oito de cada dez mensagens que recebi concordavam com tal visão. Não acredito que esse ciclo seja interminável nem descarto que até a Copa de 2014, disputada em nossas terras, sejamos capazes de ter um grande time. Minhas esperanças estão depositadas em nomes como Neymar, Ganso, Thiago Silva, David Luiz - mas também em outros garotos que poderão explodir em breve, quem sabe ainda no Brasileirão que começa neste final de semana.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

Quem leu a coluna um tanto amarga da última semana talvez possa achar que, como o nível dos nossos times anda absolutamente tristonho, eu sou daqueles que aposta em um Brasileirão chatíssimo. Mas não é bem assim.

Há que separar a qualidade do campeonato da emoção do campeonato. Essas coisas não necessariamente andam juntas, ainda que, quando damos tal sorte, chegamos ao paraíso. O Campeonato Espanhol é um bom exemplo de como nível técnico e emoção nem sempre estão de mãos dadas. Isso porque, apesar de reunir equipes com muitos craques no elenco, a Liga Espanhola seguiu, nas últimas três temporadas, mais ou menos o mesmo roteiro: Real Madrid e Barcelona num patamar muito superior ao dos demais, com o Madrid tentando, tentando, mas jamais conseguindo ultrapassar o Barça. Na mão oposta da realidade espanhola, o Brasileirão 2011 promete times com veteranos repatriados, jovens promessas ainda não confirmadas e um monte de jogadores medianos, que ainda não jogaram o suficiente para despertar o interesse de algum time mais rico do futebol europeu, árabe, asiático, norte-americano, marciano, venusiano... (Sim, porque às vezes tenho a impressão de que qualquer time de qualquer país do mundo consegue arrancar nossos jogadores na hora que bem entender).

Não pensem, todavia, que essa limitação de talento fará do Campeonato Brasileiro uma competição desprovida de emoção. Muito pelo contrário.

Da mesma maneira que já acompanhei alguns 0 x 0 que me encantaram tecnicamente, já vi muitas peladas sem-vergonha, que acabaram 5 x 4, 6x 3, 8 x 2 - e, ainda assim, deixaram os torcedores extasiados e de cabelo em pé. Por conta de seu grande nivelamento, ainda que não exatamente por cima, o Brasileirão 2011 é uma competição imprevisível, um verdadeiro teste para cardíacos. Não foi muito diferente no ano passado e em 2009, quando a dupla Fla-Flu levantou os canecos. Os dois cariocas não começaram as temporadas como favoritos, revezaram-se na liderança com um monte de outras equipes e chegaram à última rodada com o título longe de estar garantido. E aí precisaram lutar uma barbaridade para vencer seus jogos por diferença mínima e garantir a taça só com o apito final. Dificilmente será diferente este ano.

E assim chegamos ao parágrafo mais doloroso da coluna, no qual eu tenho o dever de compartilhar com o leitor quem são meus favoritos para a conquista deste ano. Como é boa a vida dos cronistas esportivos espanhóis... Se eu escrevesse para o El País, poderia repetir a mesma coluna anos a fio: "Real Madrid e Barcelona vão disputar o título e vejo leve vantagem para os catalães". Mas, aqui no Brasil, a coisa é muito mais complicada. Chega a ser mais fácil apontar cinco times que não serão campeões de jeito nenhum do que apontar cinco reais favoritos. E, ainda assim, com grande possibilidade de erro. Só que eu não fujo do desafio e terei o descaramento - sim, o descaramento - de apontar os meus candidatos. Para mim, são cinco: os regulares Cruzeiro e Santos, a dupla Fla-Flu, que, embora não venha encantando, tem gente muito talentosa no plantel, e o aguerrido Internacional. Pronto. Eis os palpites. Agora é aguardar a enxurrada de e-mails de leitores inconformados: cadê o Corinthians?! E o Grêmio?! E o empolgante Coritiba?!... A eles, repetirei o que disse: o campeonato é imprevisível. Jamais percam as esperanças.

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