nandoreis@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2026 | 00h00

Cheguei por aqui não sei como. Os aeroportos brasileiros estão caóticos e minha vida é um ir e vir que não acaba mais. Não há mais vôo que saia no horário e o pior é não saber onde e quando vamos chegar. A chuva que cai e o frio que faz são só expressões da tristeza e da sujeira que vai demorar para ser limpa. Quando alguém morre leva um pouco da gente. E nesse momento estamos todos menos vivos. As nuvens encobrem o Sol, um pouco envergonhado de iluminar as atrocidades que andam acontecendo por essas nossas bandas.Esse estranho fenômeno se reflete também na falta de alegria que paira sobre os campos de futebol. Parece que o próprio Campeonato Brasileiro se ressente de inspiração e ânimo para jogar a bola que sempre foi a bola que jogamos. Pouca motivação? E ainda vem os eurodólares para levarem mais uma penca de jogadores que insistem em brotar como mato nos nossos gramados.Agora não são só os países dos grandes centros que consomem nossos jogadores de ponta. Lugares antes secundários na geografia do futebol já se tornaram grandes clientes e importadores dos atletas de nível também secundário. O futebol do Brasil abastece o resto do mundo. Daqui a pouco, devemos estar exportando roupeiros, massagistas e gandulas.Os Jogos Pan-Americanos desviam muito do foco que antes se dirigia apenas para o futebol. Um evento desse porte naturalmente ofuscaria qualquer outra competição que estivesse em curso. Mas não precisava ser desse jeito.Já temos aquela confusão de jogos adiados, antecipados e transferidos, times com três jogos a mais do que outros, criando aquela estranha sensação de precisar ter olhos abstratos para ler a matemática da tabela. Um mais um pode ser igual a zero, um ou três pontos.Loucura.Dentro desse baixo-astral que tomou conta da nossa cidade de São Paulo, do nosso País, a gente vai levando a vidinha e assistindo na televisão o absurdo da irresponsabilidade de quem não se pronuncia. Ou, se fala, tira o corpo fora.As rodadas vão se arrastando, os jogos vão acontecendo quase todos os dias, sem muito alarde ou relevância, até que daqui a pouco chegaremos mais perto do final e aí vai dar aquele desespero de quem pode ser rebaixado e começa a se debater como peixe que pulou pra fora do aquário.É natural que a gente viva muito mais o presente do que a sugestão do futuro. No caso da vida prática e emocional é o que há de mais salutar e confiável. Mas, da mesma maneira que sonhar faz bem para os corações incompletos que não têm ao seu lado o amor desejado, não deixar escapar um bom lugar na classificação é sempre mais prudente do que responsabilizar árbitros pelos maus resultados que poderão levar à degola.Os leitores que me perdoem, mais ainda me sinto meio sem ânimo pra falar de futebol, pra achar a graça que tem que ter o futebol, pois sua força e beleza é justamente ser a expressão fiel e multicolorida de toda a riqueza e diversidade que tem a gente dessa nação.Diante dessa loucura que anda acontecendo, dessa falta de seriedade que parece que tudo pode e tudo não tem importância, nada mais natural do que um campeonato sem graça, escasso de técnica, surpresa e inspiração. Como todos nós, é provável que os jogadores estejam cansados desse descaso que é o Brasil.

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