Descobridor de talentos rachou a seleção marfinense

O polêmico Jean-Marc Guillou criou uma academia para jovens jogadores e queria que só eles atuassem no time

, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2010 | 00h00

Jean-Marc Guillou foi um jogador francês mediano. Chegou a disputar a Copa do Mundo de 1978, na Argentina, pelos Bleus, mas jamais foi muito notado. Atualmente, porém, é uma das figuras mais importantes do futebol da Costa do Marfim. Para o bem e para o mal.

Do elenco dos Elefantes que está no Mundial, 12 jogadores foram descobertos por ele. São os casos dos irmãos Kolo e Yaya Touré, de Eboué, Zokora e Dindane, entre outros. Guillou é um descobridor de talentos. E enche os bolsos com tal atividade.

Tudo começou em 1994. Guillou, definido como um homem discreto que raramente se manifesta, fundou em Abdijan uma academia de formação de talentos e fez acordo com o Asec Mimosas, principal clube marfinense, do qual era técnico na época. Descobria garotos nos campos de várzea do país - ainda hoje há relatos de que a cada fim de semana há centenas de partidas nas periferias, realizadas sob os olhares dos homens de Guillou - e os levava para o Asec. Logo, firmou convênio com o Beveren, da Bélgica. Transferia os melhores para lá, com 17, 18 anos.

Os volantes Yaya Touré e Romaric, e o atacante Gervinho estão entre os jogadores que praticamente se tornaram profissionais no Beveren. Outros passaram por clubes belgas como Anderlecht e Genk. Com o tempo, vários chegaram à seleção.

Aí começaram os problemas. A "turma do Asec", incentivada por Guillou, tentou tomar o comando da seleção. Queriam deixar em segundo plano jogadores formados de outras maneiras, como Drogba, que nasceu para o futebol na França.

Eliminação. Em 2006, Guillou disse, antes da Copa da Alemanha, que a Costa do Marfim "só seria bem-sucedida se apostasse totalmente em jogadores formados no Asec". A seleção foi eliminada na primeira fase.

Em janeiro deste ano, o zagueiro Kolo Touré teria tentado tirar de Drogba a braçadeira de capitão, durante a Copa Africana de Nações. A "turma do Asec" queria tomar o poder. O grupo se dividiu. A Costa do Marfim, considerada favorita ao título, ficou pelo caminho. O técnico bósnio Valih Halilhodzic não conseguiu evitar o racha, acabou demitido.

Sven-Goran Eriksson assumiu e parece ter conseguido unir o grupo. O time joga de maneira solidária, como os próprios jogadores admitem. Eles no entanto, não tocam no passado. O técnico sueco também não.

Guillou tem também seus defensores, não apenas entre os jogadores que descobriu, mas entre dirigentes e jornalistas. Há quem o chame de "missionário". O argumento é simples: não fosse sua academia, a Costa do Marfim não teria descoberto tanto talento e tirado da miséria para jogar no futebol europeu dezenas de garotos pobres.

Certo é que as academias de Guillou, de 64 anos, vão de vento em popa. Atualmente, ele descobre talentos em outros sete países, inclusive um europeu: Bélgica, Vietnã, Tailândia, Egito, Mali, Madagascar e Gana.

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