''Desenvolvi uma ansiedade maior. Não posso decidir''

Técnico há quatro anos, Giovane encara seu 1ª grande desafio: a final da Superliga

Entrevista com

Amanda Romanelli, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2011 | 00h00

Giovane Gávio, técnico do Sesi

Há pouco menos de dois anos, Giovane Gávio, bicampeão olímpico, estava desempregado. A equipe da Unisul fechava suas portas e o ex-jogador, convertido a técnico havia duas temporadas, não sabia onde sua carreira teria continuidade. Até encontrar o Sesi, com quem disputará no domingo, diante do Sada Cruzeiro, seu primeiro título da Superliga como treinador.

Nesta entrevista ao Estado, o mineiro de Juiz de Fora fala da equipe que o acolheu, dos desafios como técnico - comandando craques como o ponta Murilo e o líbero Escadinha - e seu estilo "democrático", além do início da carreira acadêmica, como estudante de educação física, aos 40 anos.

O Sesi fez a melhor campanha da fase classificatória e pode conquistar o título em dois anos de trabalho. Qual é o segredo?

Tenho uma condição muito boa de trabalho, tanto física quanto humana. Alguns dos melhores jogadores do mundo estão aqui. Isso gera facilidade de um lado e dificuldade por outro. A exigência deles é grande e eu tenho que colocá-los em condição de jogo. Mas são pessoas que me ajudam muito. Tenho uma comissão técnica participativa, em que a gente fala, discute muito vôlei e toma as decisões em conjunto.

Qual é a responsabilidade do Sesi na final?

Fizemos uma temporada boa, mas tivemos problemas com contusões: Murilo, Thiago Alves, Enoch, Jotinha... Mas, com a força do grupo, conseguimos nos manter na frente. Isso nos fortalece, porque não temos só os melhores do mundo, mas um grupo em que todos fazem a diferença.

As experiências como jogador e dirigente se aplicam ao trabalho de técnico?

A vivência que eu tive como jogador e a experiência de quase dois anos como gerente ajudam bastante. Mas a minha visão e a minha forma de tratá-los é, talvez, um pouco arriscada. Dou muita liberdade para eles participarem das decisões.

Você é, então, um técnico democrático?

Sou, mas só enquanto puder ser (risos). Mas isso é a atitude, o comprometimento deles que vai ditar. Se eles fizerem tudo o que têm que fazer, vou sempre ser democrático. Quando vejo que alguma coisa não está indo certo, aí tenho que mostrar o caminho.

E até onde vai o trabalho do técnico?

O técnico pode interferir sempre, porque tem autoridade para isso, mas precisa ter o bom senso para não tirar a liberdade do jogador. Desenvolvi uma ansiedade maior agora. Não posso decidir, eles é que podem. Então, às vezes, fico querendo ajudar demais e não preciso. São jogadores prontos, consagrados, e posso até atrapalhar. São muitas as decisões que eles tomam. E eu só rezo (risos).

O Sesi, originalmente, pretendia ser parceiro do Osasco. Mas você, com o fim da Unisul, pediu uma chance. Como foi?

Um passarinho soprou no meu ouvido. Na verdade, o Paulo Skaf (presidente da Fiesp e do Sesi-SP) já tinha fechado com o Osasco mas, por alguma razão, o negócio deu errado. Eu sabia que ele estava sensibilizado e pensei: "Vou lá expor a minha situação, estou passando pela mesma coisa". Deu certo. Estou muito contente porque, independentemente do resultado da final (da Superliga), esse projeto já é vencedor. São mais de 30 mil crianças praticando vôlei em todo o Estado (em 53 escolas do Sesi). Aqui temos uma forma de pensar, que é por meio do exemplo. O time é um exemplo para as crianças que estão na sala de aula, que no recreio assistem nossos treinos. Nosso grande desafio é esse: mais do que resultados, queremos contagiar as pessoas. Foi esse comportamento que eu vendi para o Sesi e eles apostaram.

Você já passou por problemas de estrutura, de pagamento, coisas que parecem estar um pouco mais distantes agora no vôlei brasileiro... (Giovane faz sinal de "mais ou menos" com as mãos). O pior já passou?

Durante muito tempo o orçamento da Superliga era só para pagar o salário das pessoas, e a estrutura foi deixada de lado. Aos poucos, estão melhorando. Quase todas as equipes já tem um tapete (na quadra) específico para o vôlei, já têm uma iluminação adequada, e por aí vai. A Superliga começou no ano passado uma nova era (com as repatriações), mas antes você realmente tinha que passar o chapéu. Existem alguns times que ainda estão assim, com pessoas apaixonadas que correm atrás de um patrocínio aqui e ali. Muitas vezes os técnicos, coitados, não têm condição de planejar nada, só ficam correndo atrás de dinheiro.

E como veio a vontade de virar técnico já que, primeiro, você foi dirigente?

Terminou uma temporada, a de 2005, e me fizeram uma proposta para assumir o projeto (da Unisul) em Santa Catarina. Entendi que era um bom desafio, um objetivo bacana. Eu já não queria mais jogar, não ia mais para a seleção, então aceitei. Me sentia útil, e tudo, conseguindo formar uma equipe, mas de certa forma eu queria algo mais perto da quadra. Ficar só na tribuna, atrás da grade...

Resolvendo problema...

Pois é, porque só te chamam quando tem problema. Quando está tudo indo bem, ninguém te chama, né? Queria um desafio maior. Nessa ocasião me fizeram um convite para me tornar apresentador de TV, mas o que realmente mexe comigo é a quadra, o ambiente, é falar de vôlei e proporcionar a outras pessoas a chance de conquistar. Decidi, então, que iria me tornar treinador.

Como você se preparou?

Fiz um curso da Confederação Brasileira de Vôlei, mas é o dia a dia que traz a experiência. Agora estou fazendo universidade, porque complementa. Um pouco de teoria faz bem, especialmente no planejamento da temporada. Confio muito na minha comissão técnica, mas por enquanto não posso emitir opinião. Espero poder fazer isso quando terminar a faculdade.

Como conciliar trabalho e estudos?

Confesso que agora, na reta final da Superliga, não consegui. A exigência foi muito alta. Eu tenho um horário de estudo diferente, só às segundas e terças, de manhã e à noite. No período do campeonato, jogando de quinta e sábado, dava para conciliar. Mas o playoff foi puxado, com jogo na segunda, na terça... A primeira parte do segundo semestre ficou meio prejudicada. Vou tentar recuperar mas não sei se vou conseguir. Talvez tenha que começar o segundo semestre de novo.

Imagino que você tenha recebido muita influência de seus técnicos, especialmente daqueles com os quais foi campeão olímpico. Que bagagem você traz do José Roberto Guimarães e do Bernardinho?

Tive a sorte, o privilégio de ter tido por perto alguns dos melhores... Bebeto (de Freitas), Jorjão (Jorge Barros), Zé Roberto, Bernardo. Mas talvez o Bernardo, por ter sido o último treinador, tenha deixado as coisas mais frescas na minha cabeça. Talvez seja com quem eu tenha uma ligação maior, não de temperamento, mas de trabalho, da forma como ele busca as coisas no dia a dia, das coisas que ele aplica. Ainda não tive a oportunidade de acompanhar o trabalho na seleção, mas ele abre algumas janelas na preparação. Vou tentar fazer isso no fim da Superliga, passar uma semana para reciclar, melhorar, aprender. Tenho que aprender com quem sabe, e ele sabe muito.

Chegar à seleção é uma meta?

É um sonho, mas preciso me preparar bastante. Ser técnico de um clube com a qualidade do nosso já é bastante complexo, imagine da seleção? O tempo é curto, você não pode errar. Tem que estar muito bem preparado, não pode ser experiência. Tem que ser pra valer.

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