Destaque brasileiro da MLB vislumbra futuro 'brilhante' do beisebol

Destaque brasileiro da MLB vislumbra futuro 'brilhante' do beisebol

Fugindo das tradições, Yan Gomes ganha espaço nos Estados Unidos e se torna um dos melhores jogadores da posição no esporte

Felippe Scozzafave, O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2014 | 07h00

O talento brasileiro para a prática de esportes é inegável. Considerado o "país do futebol", o Brasil vira e mexe se destaca também em outras modalidades. Tal talento já é reconhecido ao redor do mundo e ganha, a cada ano, mais e mais espaço nos esportes americanos. Com um número recorde de representantes na NBA, com sete jogadores, além de Cairo Santos, brasileiro que defende o Kansas Ciy Chiefs na NFL, o beisebol também está muito bem representado, com André Rienzo e principalmente com Yan Gomes, paulistano de 27 anos que acaba de ser premiado como um dos melhores jogadores em sua posição de toda a Major League Baseball.

Catcher titular do Cleveland Indians, Yan viveu uma temporada "dos sonhos" e mesmo jogando em uma posição de defesa, foi fundamental para a equipe no ataque, com um aproveitamento de 27,8%, conseguindo 21 home runs e impulsionando 74 corridas. Apesar de sua equipe ter ficado fora dos playoffs, ele foi premiado com o Silver Slugger, como o segundo melhor defensor com desempenho ofensivo, perdendo apenas para Salvador Pérez, do Kansas City Royals, que terminou a temporada como vice-campeão.

Já estabilizado como um dos melhores jogadores em toda a MLB e com um contrato milionário de cerca de R$ 50 milhões por seis temporadas, Yan se destaca desde os tempos de criança, quando, antes de se mudar para os Estados Unidos, já era apaixonado por beisebol graças a uma história curiosa. "O meu pai estava no supermercado no Brasil e conheceu um técnico de beisebol. Esse cara disse para ele levar os filhos para treinar, meu pai levou e nós adoramos", conta, em entrevista ao Estado.

Porém, a sua trajetória jogando no Brasil não durou muito tempo, já que, ainda jovem, se mudou, com toda a família, para a cidade de Miami, nos Estados Unidos. "Quando cheguei em Miami, eu participei de um trial para uma liga infantil. Como já jogava no Brasil, eu era um dos melhores do time". Daí em diante, a história de Yan Gomes no beisebol foi crescendo cada vez mais. Depois de se destacar no beisebol escolar, matriculou-se na Universidade do Tennessee, onde defendeu os Volunteers na NCAA. O bom desempenho o levou ao draft da MLB. Foi selecionado em 2008, pelo Boston Red Sox, mas optou por permanecer na liga universitária. No ano seguinte, assinou contrato com o Toronto Blue Jays, que o escolheu na décima rodada.

Em alguns anos vivendo na cidade canadense, passou por divisões menores da liga e pouco teve oportunidade de jogar no time principal e, em 2012, foi envolvido em uma troca com o Cleveland Indians, o que fez a sua carreira decolar. "Nos Blue Jays tinham muitos jogadores da mesma posição que eu, dois dos atletas considerados os melhores do time eram da minha posição, ai eles acabaram me trocando para os Indians, que estavam precisando de um catcher. Eu não sabia como seria com um time novo, mas deu muito certo. Eu adoro a cidade e rapidamente me adaptei."

Apesar de viver nos Estados Unidos desde a infância, Yan não esquece as suas origens e, como grande parte dos brasileiros, é apaixonado por futebol, principalmente pelo Santos, um dos motivos para ele utilizar a camisa 10 no Cleveland Indians. "Antes eu tinha o 68, mas decidi trocar porque a 10 é especial. É o número do Pelé e também o número do Neymar na seleção", diz ele, elogiando a capacidade dos brasileiros em se destacar nos esportes. "O futebol é um esporte muito tradicional no Brasil e você pouco vê os americanos se sobressaindo nisso. Quem sabe quando o beisebol for introduzido na nossa cultura, as crianças praticarem, quem sabe não aparece um "Neymar do beisebol".

Confira a entrevista com Yan Gomes:

Como você vê o seu desempenho e o do Cleveland Indians na atual temporada?

Esse ano muitas coisas aconteceram. Dois caras importantes do nosso time se machucaram e mesmo assim a gente ficou muito perto de se classificar para os playoffs. E isso animou muito o nosso torcedor. Esse ano foi considerado positivo e eu acredito que o fato de Cleveland estar em destaque no esporte, vai aumentar ainda mais o apoio que nós recebemos.

Sobre o prêmio que você ganhou, apesar do bom rendimento nos três principais quesitos, se sentiu injustiçado por não receber o Gold Glove?

Eu fiquei feliz apenas de ser candidato para receber o Gold Glove. Foi uma honra muito grande estar entre os três melhores. Eu acabei recebendo o silver Slugger, mas eu fiquei muito feliz mesmo. Os atletas que estavam concorrendo comigo são grandes jogadores e por quem eu tenho muito respeito.

Quem são suas principais inspirações no beisebol?

Eu assistia bastante o Benito Santiago, um atleta que eu sempre gostei muito de ver jogar quando eu estava crescendo. Outro que eu admiro muito é o Yadier Molina, que ainda está na Liga, jogando pelo St. Louis Cardinals, ele é muito respeitado por todos. Mas eu tenho uma relação muito boa com todo mundo na Liga. Todo mundo é muito unido.

Como é a sua relação com o Brasil? Costuma visitar o país?

Eu fui no ano passado para visitar minha família e meus amigos. Nesse ano não deu para ir porque a minha filha nasceu, ela tem apenas seis meses e seria difícil fazer uma viagem dessas com ela. Mas nos próximos anos eu pretendo ir muito para o Brasil.

E como você enxerga o cenário atual do beisebol no Brasil?

O talento do Brasil está crescendo muito. O problema é que o beisebol não é um esporte como o futebol ou basquete, que você pode jogar em qualquer lugar. Precisa de equipamento. Mas está melhorando muito. O esporte está crescendo, mas isso é uma coisa demorada. O importante é que ele comece com as crianças. O fato de ter transmissão de um jogo de beisebol da MLB na TV brasileiro é muito legal. Mostra que está crescendo. Quem sabe eles introduzem o beisebol nas escolas brasileiras. Para mim, o importante é introduzir o esporte nas crianças, é nessa fase que você vai se identificar com algo.

Então o beisebol brasileiro tem "futuro"?

Eu acho que a minha chegada na MLB abriu os olhos dos norte-americanos para os brasileiros no beisebol.Sempre perguntam pra mim sobre os brasileiros, alguns times possuem olheiros no Brasil para encontrar novos talentos. Eu, o Rienzo e o Orlando somos como pioneiros do beisebol no Brasil e eu tenho certeza que isso vai abrir portas para o esporte no país.

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