Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

'Deus me poupou do sentimento do medo', diz Juvenal Juvêncio

Presidente rompe silêncio e fala sobre o momento do clube, o futuro longe da política e o tratamento de um tumor de próstata

Entrevista com

FERNANDO FARO, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2013 | 02h04

SÃO PAULO - Juvenal Juvêncio é um homem de convicções. Nem mesmo o tumor de próstata diagnosticado há alguns anos e só agora revelado tira seu vigor. O dirigente recebeu a reportagem do Estado para mais de uma hora e meia de conversa e exibiu a mesma força de sempre para defender seu legado à frente do São Paulo. Enfrentou, foi confrontado (como é de seu gosto) e não se furtou às polêmicas, inclusive posando (e visivelmente gostando) ao lado de um mosaico que recebeu de presente com o símbolo do clube e os dizeres "inspiras a inveja". Mas o dirigente também abriu um lado raramente visto, admitiu erros em algumas avaliações e prometeu que seu futuro à frente do clube será apenas como consultor. "Mas não achem que sumirei e irei pescar, isso não farei nunca."

ESTADÃO - Falou-se muito e escutou-se pouco sobre seu quadro de saúde. O senhor se importa em falar sobre esse assunto?

JUVENAL - Eu nem tenho interesse e não entendo o interesse de vocês, acho que é especulativo. Primeiro disseram que eu estava velho, que eu tinha 80 (anos), depois 81 e depois 82. Eu tenho menos de 80, sou um cara responsável. Essa história (tumor) tem, mas vocês ficam pensando "está na hora de matar o Juvenal. Como não podemos matá-lo com faca vamos fazer de outro jeito". Esse negócio de próstata é algo natural; você tira, faz radioterapia e de dois em dois anos verifica se está tudo bem.

ESTADÃO - O senhor está bem, então?

JUVENAL - Sim, estou. Tudo certo.

ESTADÃO - O que assusta mais, uma doença ou se afastar da vida política?

JUVENAL - Essa preocupação é mais de vocês. Vi um programa de TV no domingo em que o cara disse que o clube era uma bagunça. Bagunça? Nunca ouvi isso do pior adversário, de caras que querem meu lugar. Minha administração é feita para o torcedor anônimo, para o pé descalço. Falar para meus engravatados, como eu, não resolve.

ESTADÃO - Esperava um ano tão difícil?

JUVENAL - Você nunca espera coisa negativa mesmo tendo que lidar com a razão. O time está mal e precisa melhorar; surpreendeu negativamente porque fizemos um esforço grande. Você tem um Rogério Ceni, eu trouxe o Lúcio, o Jadson, o Ganso, o Luis Fabiano, essa espinha dorsal não teve o tamanho e a grandeza desses atletas. Dizem que contratei muitos laterais, mas isso é porque meu computador não sabe falar o que vai dar certo. Não estamos falando de uma matemática.

ESTADÃO - Por que o Autuori falhou?

JUVENAL - Tentei trazê-lo do Catar quatro vezes e finalmente trouxemos. E começamos a perder. Chamo o Paulo e pergunto como estamos. Aí vem "precisava de um homem no meio-campo, um na zaga e um na frente". Aí eu disse: "Você precisa resolver com o que está aí. Bota esses caras para 'jambrar'; tem que olhar no fundo do olho do caboclo, entrar dentro dele". As declarações, as posturas, havia uma repetição disso, a mesma ladainha, nada mudava. Sabia que precisava fazer algo e durante a madrugada me deu um estalo e pensei: "Vamos demitir o técnico".

ESTADÃO - E então veio o Muricy...

JUVENAL - Se você der um time para o Paulo, em um ano ele te devolve certinho, mas não tinha um ano. Precisava de um choque que arrebentasse de um lado ou do outro. O que não podia era entrar naquele diapasão que me levaria ribanceira abaixo. Não podia mais esperar aquela conversinha do aluno bem aplicado que tira nota 7. Precisava de um que tirasse 10 ou então arrebentasse a classe.

ESTADÃO - O senhor tinha convicção do que estava fazendo?

JUVENAL - Não estava convicto de nenhum deles. Acho o Paulo excepcional, mas acho que falta aquela pequena malandragem para ser técnico no Brasil. O Muricy saiu quando era hora e fomos tentar outras coisas, mas erramos. Depois do Telê, a torcida se habituou a grandes figuras no banco e quem apareceu foi o Muricy.

ESTADÃO - Tantas trocas derrubam a tese da diretoria de que só a estrutura ganharia os títulos, não?

JUVENAL - A estrutura sozinha não ganha. Ela ajuda muito, mas não ganha. Chegamos a pôr o São Paulo na Libertadores com o Rojas como técnico. Aquilo foi a estrutura, mas ela não funciona sozinha, precisa de um comandante na parte técnica.

ESTADÃO - O time precisa de uma reformulação para o ano que vem?

JUVENAL - Sim, precisa. Não conversei com o Muricy ainda, estou deixando ele deslanchar um pouco, entender melhor onde está mais fraco, quero saber da visão dele sozinho e depois vamos sentar e conversar para não termos os sustos deste ano. Precisamos dar uma reordenada nesse processo.

ESTADÃO - Seu afastamento do Marco Aurélio Cunha é irreversível?

JUVENAL - A atitude quem tomou foi ele, que foi um funcionário do clube com muito respeito e saiu porque pediu demissão, não houve nada negativo e depois trabalhou em outros clubes e agora tem a primeira gestão como conselheiro. Ele admite que votou pela minha chance de disputar o terceiro mandato, mas porque prorrogou o mandato dele de conselheiro. Falam que eu prorroguei o mandato, mas ganhei do Conselho, com 90% de aprovação, a possibilidade de disputar uma nova eleição. Tive que disputar, não tive nada prorrogado, ao contrário do Conselho.

ESTADÃO - O que pensa quando dizem que o senhor é arrogante ou está caricato neste fim do mandato?

JUVENAL - Tentam fazer uma imagem que não pega. Dizem, por exemplo, que falo rebuscado. Eu não falo rebuscado, falo português. Acho que é o hábito que as pessoas têm de ouvir qualquer coisa e engolir. Eu não engulo, eu falo, enfrento qualquer situação. Não tenho medo, Deus me poupou do sentimento do medo. Minha ausência permanente da imprensa é deliberada porque, se falar alguma coisa, vai repercutir fortemente, ao contrário de dirigentes que falam todo dia e não conseguem repercussão. Nossa fala é reflexiva, mais profunda, corajosa e verdadeira e é uma coisa pensada; põe o dedo na ferida e toca nos problemas, não é um folhetim informativo de baboseiras.

ESTADÃO - E as críticas de que o senhor personificou a gestão do clube?

JUVENAL - Isso caminhou por causa de algumas atitudes mais fortes. Recentemente passaram uns presidentes pelo Palmeiras em que eles diziam A e o diretor dizia B. O Santos pôs um comitê gestor que o presidente falava A e eles B. O regime no São Paulo é presidencialista e muito da força do clube está nessa verticalização de comando porque o futebol é feito de emoção e se você espalhar a emoção para várias diretorias para decidir a soma dá negativa; você tem que ter um presidente que avalize e tome as decisões.

ESTADÃO - O que pretende fazer quando deixar o cargo?

JUVENAL - Eu pretendo me afastar, mas não como aqueles sujeitos que vão pescar e nunca mais voltam. Ficarei sem comparecer e dando palpite em resultado de técnico e contratações, quem comandará isso são os novos dirigentes. Serei um novo companheiro para participar das reuniões, mas sem influência.

ESTADÃO - Qual o legado que o senhor deixa para o futuro?

JUVENAL - A grande marca que tenho entre meus pares é minha palavra. Ensino aos meus companheiros que se você prometeu Coca-Cola para um jogador dê Coca-Cola, não Guaraná. Faça exatamente o que prometeu. Certamente será muito lembrado o trabalho físico, as obras, o estádio, os grandes shows. Isso e o fato de ter feito Cotia serão lembrados.

ESTADÃO - E o qual o maior erro?

JUVENAL - (Longa pausa) Não fomos tão felizes na escolha dos técnicos, isso é o que mais vai marcar. Fizemos um esforço enorme, conseguimos corrigir salários, aquelas comissões de cinco ou seis pessoas e as multas. Isso fomos bem, mas a entidade não foi a mais feliz na escolha dos técnicos, isso é fato.

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