Deus salve a América do Sul

"Deus salve a América do Sul!" - cantou Ney Matogrosso, diante de um público de centenas de milhares de pessoas, na abertura do primeiro Rock in Rio, em 1985. Não sei se foi por que este ano o amado festival voltará a ser realizado no País, mas o fato é que nos últimos dias a letra dessa música passou a martelar na minha cabeça. Pensando bem, a recordação tem bem menos a ver com música do que com futebol. A letra da canção voltou às minhas paradas de sucesso não por conta de memórias sentimentais da juventude, mas por uma razão bem concreta: o lamentável futebol apresentado pelas equipes do nosso continente na Copa América.

Marcos Caetano, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2011 | 00h00

Fico imaginando os torcedores dos principais países europeus vendo aquela tristonha sucessão de empates, gols perdidos, falhas de marcação e frangos de todas as plumagens. Enquanto tomam um gole de vinho, cerveja, xerez ou gim, eles provavelmente comentam: "Se nunca ganhamos uma copa do mundo no continente sul-americano, em 2014 ela não nos escapa". Sim, eu sei que a Copa será no Brasil, que temos uma excelente geração em formação, que a Argentina tem Messi, que o Paraguai e o Uruguai fizeram bonito na África do Sul... Mas não posso evitar o comentário: estou temeroso.

Se a Espanha - que, na verdade, é uma perfeita bricolagem de Barcelona e Real Madrid - jogasse hoje contra qualquer time destas bandas, ainda mais com a confiança que uma estrela recentemente bordada sobre o distintivo confere a uma seleção, os atropelaria fácil. Fácil não é bem o termo, pois o esquadrão de Vicente Del Bosque não é chegado a goleadas. Mas, se os times daqui sofrem para marcar gols em defesas fragilíssimas como as dos seus adversários continentais, como encontrar espaços no ferrolho que é a retaguarda espanhola? E o que dizer da seleção alemã, cheia de garotos talentosos que quase surpreenderam o mundo no ano passado, e que em 2014 estarão mais experientes? E se os italianos arrumarem de novo aquela defesa? E se a Inglaterra, com uma penca de bons jogadores de clubes, finalmente desencantar como seleção? São perguntas inquietantes.

Mais do que isso: esse desequilíbrio da balança em favor dos europeus na história recente das copas - ganharam quatro das últimas seis - pode ser um epílogo natural do absurdo êxodo dos jogadores daqui para os clubes de lá, nas últimas décadas. Se até os anos 70 para cada Pelé e Evaristo que jogavam no exterior havia dez outros craques atuando por aqui, hoje só temos em nossos clubes promessas de craques, craques em final de carreira ou com inegáveis problemas de adaptação externa. Na Argentina e no Uruguai, a coisa é ainda mais complicada, pois a moeda deles está valendo bem menos do que a nossa. E então eu pergunto: será mesmo que a existência de tantos times jogando tão bem na Europa, ainda que recheados de estrangeiros, não acabará por elevar o nível do futebol jogado por lá? Será que já não elevou?

Vamos trocar de esporte, pois nosso raciocínio futebolístico é tão recheado de prejulgamentos que não vale a pena argumentar por esse caminho. Pensemos no basquete. Imaginemos que, por algum milagre macroeconômico, o Brasil passasse a ter dinheiro para arrancar quantos jogadores quisesse da NBA, a poderosa Liga de Basquete Americana.

Quanto tempo o nosso campeonato levaria para ser melhor do que o deles? Cinco anos? Uma década? E em quanto tempo nossos jogadores, convivendo com os maiores artistas do espetáculo, estariam jogando de igual para igual com o país dos mestres? Duas décadas? Três? Pois é exatamente isso o que acontece futebol desde os anos 80. E, assim, noves fora, o Uruguai não ganha uma Copa desde 1950, a Argentina desde 1986 e o Brasil - mais afortunado - desde 2002.

Tomara que Uruguai x Argentina e Brasil x Paraguai sejam jogos de sonho e façam minhas palavras perderem força. Mas, por ora, "Deus salve a América do Sul! Desperta, ó claro e amado sol"...

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