Dez a zero

Parece placar de futebol de botão. Ou de showbol. Ou de polo aquático. Na verdade, nem sequer isso. Joguei botão por toda a minha infância e me orgulho de ter comigo os times do meu avô e do meu pai os quais, juntos com o meu, um dia serão entregues ao meu filho, que continuará a tradição - até o dia em que a tradição se transforme em apenas um entulho empoeirado num cantinho da história.

Marcos Caetano, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

Minha experiência na arte de jogar com botões de galalite (como os meus), de massa (como os do meu saudoso pai) e de chifre de boi, casca de coco e casco de tartaruga (como os do meu saudoso avô) me permite afirmar que mesmo como placar de futebol de mesa, habitualmente elástico, 10 x 0 é algo difícil de ver. Um 10 x 5, um emocionante 10 x 9, ainda vá lá. Mas 10 x 0, só se o adversário não usar a palheta, uma vez que mesmo um garoto é capaz de marcar um golzinho contra um jogador profissional. O mesmo vale para showbol e polo aquático: um time até pode marcar dez, mas o outro não marcar é difícil.

Só que o Santos deste início de temporada, o Santos cheio de garotos - a maioria de idade, os demais de alma -, que vem encantando torcedores de todo o País, resolveu sapecar um 10 x 0 em plena Copa do Brasil, na última quarta-feira. O adversário, resmungarão alguns, foi o desconhecido Naviraiense. É verdade. Mas os que esses pragmáticos de plantão (chamá-los de idiotas da objetividade, como Nelson Rodrigues costumava fazer, seria complicado em tempos politicamente corretos) talvez não tenham percebido é que, apesar da limitação do adversário, os meninos da Vila fizeram o que muitos craques tarimbados não fazem: jogaram os 90 minutos de forma competitiva, em direção ao gol, sem firulas desnecessárias (registre-se que, para mim, quase toda firula é necessária e desejável) e sem desrespeitar o adversário.

Pode parecer pouco, mas não é. Quantos times por aí, depois de conseguir três ou quatro gols no primeiro tempo, não desacelerariam o ritmo, esperando o expediente encerrar para bater o cartão de ponto e voltar para casa depois de mais um dia ordinário de trabalho? Falei que o Santos respeitou o Naviraiense, mas o time foi mais longe: respeitou também seus torcedores, que lotaram o estádio mesmo numa partida de pouca importância e desfecho previsível. O que queriam eles, uma vitória? Mais do que isso: diante de um rival fraco, eles queriam espetáculo, belos gols, passes e jogadas "efetivas" (uma mistura de jogadas de efeito com jogadas efetivas). Foi exatamente isso que os comandados de Dorival Júnior entregaram em campo na Vila Belmiro.

Eu não me recordo, na história recente do futebol, de um time que correu tanto depois de ter construído um placar tão elástico ainda no início do confronto. Aos 45 do segundo tempo, Madson parecia estar disputando uma final de Copa do Mundo, com arrancadas enlouquecidas, tabelas velozes e chutes de todos os lugares. O resto do time acompanhou o ritmo do baixinho.

Há 40 anos o time da Vila Belmiro não marcava dez vezes numa partida.

Diante da histórica saraivada de gols, os torcedores santistas entraram definitivamente em estado de euforia. Eles estão por aí, andando de peito estufado pelas ruas - e prometendo lotar o estádio para o clássico com o Palmeiras. Em meio a tanta balbúrdia, Robinho, mostrando que é moleque sim, mas que tem maturidade, saiu-se com esta pérola: "Só se faz história com títulos". Se jogarem sempre com a exata combinação de alegria e aplicação da partida de quarta, a história não tardará a se fazer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.