Dezoito dias de loucura

É mais que um jogo, a rivalidade supera o espaço e o embate físico. É preciso refletir sobre a história e buscar nela definições da academia para colocar sobre a mesa o que representa um Real Madrid x Barcelona. Agora, imagine quatro. Extravagantes, sempre haverá entre eles mais que uma partida de futebol, seja no Santiago Bernabéu, no Camp Nou ou nas esquinas das duas mais importantes cidades espanholas.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2011 | 00h00

O filtro mais radical do clássico é capaz de produzir, além das diferenças de estilos de vida e de futebol, um conflito político. É comum ver no Camp Nou, estádio do Barcelona, um recado com letras enormes, uma frase escrita em inglês, para chegar bem longe: Catalunha não é Espanha.

O tempo e as circunstâncias sociais da partida se encarregaram de abastecer uma disputa quase mitológica entre esses dois gigantes. Normalmente se enfrentam duas vezes por temporada, ida e volta do Campeonato Espanhol, mas sempre existe a possibilidade de cruzarem os caminhos na Copa do Rei e também na Liga dos Campeões.

A novidade é que, desta vez, isso vai mesmo acontecer, e com uma agravante. Barcelona e Real Madrid vão se enfrentar quatro vezes em apenas 18 dias. Com oito pontos de vantagem sobre o rival, a Liga está praticamente definida pelo Barça, mas o resto está em aberto.

A distância folgada na tabela de classificação pode afetar o compromisso do próximo sábado, pode retirar do primeiro jogo alguns de seus protagonistas. Pode. Mas a sequência certamente será devastadora. São três decisões: uma em Valencia pela Copa do Rei e duas pelo mais organizado, rico e glamoroso torneio que se tem notícia, a Liga dos Campeões.

A Espanha viverá 18 dias de loucura, nos quais tudo será medido e comparado. A começar pelos treinadores. De um lado está o discreto Josep Guardiola, catalão, ex-capitão do Barcelona; do outro, o falastrão José Mourinho, português, um craque formado na escola de educação física. Líderes e competentes, sem dúvida alguma, mas donos de estilos opostos, a exemplo de suas formações dentro de campo.

O argentino Lionel Messi é introvertido, genial, produto de La Masía, a famosa divisão de base do Barcelona, onde talento e jogo coletivo têm pesos parecidos. Já Cristiano Ronaldo é pop, midiático, vaidoso, igualmente talentoso e decisivo, resultado da política do empresário Florentino Peres em mais uma tentativa de montar uma equipe espetacular, em mais um projeto galático. Custe o que custar.

A maior diferença, entretanto, está no campo. O time atual do Barcelona já entrou para a história, será lembrado para sempre como uma das maiores equipes do futebol mundial. O Madrid ainda busca seu reconhecimento, ainda não conseguiu decolar, não ganhou estabilidade.

A partida do primeiro turno tem muito a ver com isso. O time de Mourinho estava invicto, ostentava números formidáveis. Pep Guardiola não conseguia esconder: temia o adversário, estava apreensivo. Mas quando a bola rolou no gramado do Camp Nou, o que se viu foi uma das maiores vitórias da história, não só pelo placar de 5 a 0, mas pela forma, pelo controle absoluto do oponente, a marcação sobre pressão e o futebol fluído, triangulado, arrebatador.

Naquele jogo, o Real Madrid se deixou dominar, se entregou sem resistência. Parecia de folga, em excursão pela Catalunha para desfrutar das férias. Agora pode ser diferente, o Barcelona tem problemas no sistema defensivo, não está inteiro, embora pareça inteiro. É impossível prever o que vai acontecer, afinal serão 18 dias de loucura, em que terei o privilégio de acompanhá-los de perto. Na semana que vem, conversaremos sobre o primeiro confronto.

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