Antero Greco, antero.greco@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2009 | 00h00

Gosto de ler tudo, menos bula de remédio, porque na hora começo a sentir os sintomas relatados - vertigem, sonolência, ânsia, palpitações, perda de visão e demais reações apavorantes. Fora isso, encaro qualquer coisa impressa. Eis que ontem, antes de vir para a redação, dei uma olhada no Almanaque Santo Antônio, publicação tão tradicional quanto o Almanaque do Pensamento e o terrível óleo de fígado de bacalhau. Pois não é que nesse divertido livrinho me deparo com a informação de que hoje é o Dia da Saudade?! As digressões foram inevitáveis e viajei. Mas, fique tranquilo, não vou desfiar o rosário de lembranças que me vieram em mente ao simples som da palavra "saudade", aquela cujo sentido só existe em português etc, etc. Não sou saudosista a ponto de citar Circo do Arrelia, Pullman Júnior, Rin Tin Tin, Show do dia 7, Troféu Roquette Pinto e tantos seriados e programas de tevê que alegraram minha infância. A maioria dos que me leem aqui talvez nem saiba do que se trata. Vocês iriam me chamar de velho. Como?! Ah, sim, lembro do Concurso de Resistência Orniex, em que os sujeitos ficavam quatro dias sambando num ringue, no Ibirapuera. O último a ficar levava o prêmio.Imaginou se eu desperdiçasse conversa com essas traças? Absolutamente não! Mas, saudade mesmo, das bravas, tenho do Campeonato Paulista e da seleção brasileira. O torneio estadual era a disputa mais importante do ano, vencê-lo era uma honra e motivo para farra. O "scratch" canarinho, paixão nacional, nos enchia de orgulho e dava munição para intermináveis discussões, que giravam em torno de bairrismo e clubismo.Pois distintos leitores, um e outro perderam encanto. Infelizmente já não representam grande coisa. Reparem como cada vez mais técnicos, jogadores, dirigentes, comentaristas advertem que a competição regional, confinada aos primeiros meses do ano, é só uma etapa para desafios maiores na temporada. Os projetos (sempre eles) ambiciosos se concentram em Copa do Brasil, Libertadores, Brasileiro. Os estaduais não passam de laboratório, pré-temporada disfarçada e de segunda linha. Conquistar a taça é detalhe, um trofeuzinho a mais.Tiro no pé, porque não há rivalidade mais gostosa do que aquela paroquial, de quem está próximo. As torcidas de Palmeiras, Corinthians, São Paulo, para ficar em exemplos localizados, se expandiram na base da gozação recíproca por proezas ou tropeços no Paulista, desde a época da falecida Divisão Especial. Ferroviária, Botafogo, Comercial, Guarani, Ponte, XV de Piracicaba, América de Rio Preto e dezenas de outras equipes foram minas de joias para nosso futebol. Hoje, viraram ponto final para jogadores em fim de carreira ou entreposto de empresários da bola. Todo mundo pensa em Libertadores, como se fosse a maior coisa do mundo. Ou com "Projeto Tóquio", "Projeto Dubai", o diabo a quatro. O descolamento das raízes se reflete na seleção. Na segunda-feira, Dunga convocou time para enfrentar a Itália, dia 10, em Londres, e não tem um atleta sequer de times daqui! O treinador alegou que os jogadores domésticos estão em início de temporada, aquém de suas condições físicas e sentiriam o frio europeu. Conversa! Qual é o boleiro que não adoraria enfrentar a Itália? E qual torcedor não curtiria ver a seleção pegar a Azzurra por aqui? Em vez disso, deverá conformar-se a assistir pela tevê, com brasileiros que são ídolos (ou não) de Roma, Inter, Manchester e os Shaktares da vida. Parece que nem é mais nossa seleção. Vai ver não é mesmo.Por falar em saudade e em Londres: hoje faz 40 anos da última apresentação ao vivo dos Beatles. Foi no telhado da Apple Records, em Londres (sortuda!). Saudade deles também.

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