Diante da criatura

A vitória sobre o Figueirense é um símbolo de esperança. Se representa ou não a guinada do Palmeiras no Brasileirão, só as próximas rodadas poderão dizer. A derrota para o Corinthians empurrou a família Scolari para o abismo, ampliou a fragilidade administrativa da instituição e desenvolveu incertezas.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

24 de setembro de 2012 | 03h06

A semana quase terminou sem treinador, não fosse a disposição de Gilson Kleina ao risco. Por que não aceitar o desafio? Se conseguir evitar o retorno do clube ao inferno, as consequências para a carreira serão muito maiores do que se cair. A permanência na elite é um feito heroico diante da queda anunciada.

O risco de rebaixamento ainda é gigantesco, mas a troca pode despertar o time que duvidou do próprio sofrimento, certo da imunidade gerada pelo título da Copa do Brasil. Jogadores profissionais deveriam nascer vacinados contra o vírus que amolece as pernas e o pensamento.

A sorte palmeirense é que liderança, maturidade e capacidade técnica não são problemas para Marcos Assunção, perfeito em Florianópolis: foram dois cruzamentos para gol e uma bola na rede num placar de 3 a 1. Aos 36 anos, trata-se de destreza impar no futebol brasileiro.

O mérito do Palmeiras foi tocar a ferida dos defeitos do adversário. A defesa catarinense e as saídas em falso do goleiro Wilson foram determinantes para a derrota. Seria injusto, porém, usar esses erros para diminuir o tamanho da vitória. Recentemente o Figueirense empatou com o Fluminense e superou Corinthians, Cruzeiro e Coritiba. Havia com o que se preocupar.

O melhor da noite, entretanto, estava reservado para o fim do confronto. Assunção exibiu seu caráter para mostrar a porta de saída da crise: a mudança de comportamento. Sem ela Gilson Kleina será apenas mais um nome na lista dos treinadores palmeirenses.

"Não precisou mudar de técnico, o que mudou foi a atitude. Se o Felipão estivesse aqui, se nós não quiséssemos, não ia adiantar." A objetividade e a clareza da frase não tiram o mérito do novo chefe. Afinal, parte dessa mudança de postura pode até ser atribuída a ele, pela transformação do ambiente.

Não houve nenhuma revolução. O sistema de jogo era do conhecimento de todos, assim como as bolas extraordinárias de Assunção. A saída está na reação individual e no esforço coletivo. Cada um pode fazer a sua leitura do resultado.

Além de ajudar a reestabelecer a confiança, Kleina agora enfrentará a ainda sua Ponte Preta, que contratou Guto Ferreira, do Mogi Mirim, para comandá-la. Se o substituto de Felipão chegou precisando criar um fato novo no Palmeiras, a primeira tarefa de Ferreira é não estragar o que vem funcionando.

Diante de tanto sofrimento atrás de uma rota de fuga, a conclusão é a seguinte: no sábado, no Pacaembu, Kleina enfrenta ele mesmo, tendo a vantagem de poder explorar os defeitos e neutralizar as virtudes de sua criatura. Que oportunidade!

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