Diário da Seleção: Brasil precisa mais da América do que da Europa

Europeus desconfiavam que os povos da América poderiam fazer a diferença em uma Copa disputada nos trópicos. O fator clima estaria a favor dos americanos do Sul, Centro e Norte. A Europa não imaginava, porém, que os "nativos" seriam tão devastadores como mostraram nas duas primeiras rodadas do Mundial.

Luiz Antônio Prósperi, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2014 | 02h02

Cesare Prandelli, treinador da Itália, sentiu na pele a diferença entre a explosão de um traque da Azzurra comparada ao clarão atômico da Costa Rica no Recife. Vicente Del Bosque, o marquês espanhol, viu a avalanche chilena aterrar a campeã do mundo no Maracanã tingido de vermelho. A Colômbia trucidou a Grécia sem piedade em Belo Horizonte. E vem mais. Entre "mortos e feridos", seleções da América emplacaram 12 vitórias até a rodada de sexta-feira.

Quando os europeus jogaram água no rosto para se refazer do nocaute, perceberam que não era apenas o clima, essa história de calor e a tal umidade do ar que jogavam a favor da América. Havia algo no ar que eles não colocaram em suas planilhas: a atmosfera da confraternização entre os povos.

Não entenderam nada ao se deparar com as invasões dos "bárbaros" nas arenas da Copa. Multidões de argentinos, chilenos, mexicanos, uruguaios, colombianos, costa-riquenhos e até de gente não classificada ao Mundial, como venezuelanos, bolivianos, paraguaios e outros vizinhos. Na cabeça dos europeus, brasileiros seriam maioria nos estádios, com alguns bordados de sul-americanos e bons bocados de fanáticos europeus. Que nada. Os "miseráveis" pediram passagem e foram em frente.

Esse cenário não deve se modificar, pelo menos até o fechamento da primeira fase da Copa do Mundo. Europeus de fino trato, campeões do mundo como espanhóis e ingleses já afivelam as malas para voltar mais cedo para casa do que sonhavam. Italianos também correm esse risco. Sem falar dos portugueses, que estão no fio da navalha. Tem sido dura a vida deles do outro lado do Atlântico.

Aí vem o gaiato querendo saber: por que a seleção brasileira não tem sido tão devastadora como as irmãs de continente? Se os vizinhos nossos podem (sí, se puede), por que a gente não? Quem tem de resolver essa encrenca é Felipão e os jogadores.

Os brasucas estão em todas as partes, mesmo com aquele cântico sonolento "eu sou brasileiro, com muito amor" ou ainda o "Brasil, Brasil" sem a força do pulmão e a emoção do coração. Não tem assim o peso de um grito argentino ou do chileno, mas é o que temos. Q que não falta é apoio aos rapazes de Felipão. Eles já receberam na Granja mais de 6 mil cartas de incentivos de fãs, mesmo nesses dias de mundo digital com Instagram, WhatsApp, Facebook, Twitter, e-mails. São cercados de carinho em todos os cantos do País. E na hora do hino, então, nem se fala. Choram a capela ao primeiro acorde do "ouviradum". As pernas bambeiam.

Se não falta apoio da torcida, falta o quê? Parece que os jogadores ainda não despertaram, inebriados que estão com a Copa do Mundo no Brasil. Não é mais sangue na veia, nem raça, entrega, amor à camisa. Falta ao pessoal do Felipão arriscar mais, inventar outro tipo de jogo, tirar o adversário para dançar, ser criativo e não deixar nas costas de Neymar a responsabilidade de ser o diferente, o faz-tudo, o pau para toda obra.

Os rapazes de Felipão não precisam mais evocar o duro passado que a maioria deles teve para chegar até aqui. As dificuldades das famílias, o quanto lutaram para vencer no futebol até a consagração de vestir a camisa cinco estrelas. Eles têm de meter na cabeça que ganharam a oportunidade única de jogar uma Copa em suas casas, privilégio de poucos. E encantoar os adversários como presas indefesas. Sem trégua, mas com um pingo de racionalidade. Esses bravos não têm mais o direito de se deixar levar pela emoção e sim usar essa emoção a favor do Brasil.

Felipão já detectou essa fragilidade. Percebeu que em vez de usar o incentivo, que transborda das arquibancadas e enche as ruas, os jogadores preferem ficar reféns dessa vertente. A única saída para Felipão estancar o vazamento não é fechar o dique, é abrir os olhos da rapaziada de que não se pode afogar nas lágrimas do hino. O Brasil precisa ser mais América e menos Europa.

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