DIÁRIO DA SELEÇÃO: Luisito Suárez indica o caminho a Fred

Será que Fred viu pela televisão o jogo Uruguai 2 x 1 Inglaterra? Na hora da partida, o atacante não estava no campo 2 de Teresópolis treinando com alguns de seus companheiros que "suavam" a camisa sob frio e chuva intensos. Por ordem da comando da seleção, alguns jogadores não desceram para se exercitar no final da tarde de ontem. Ficaram recolhidos na concentração no tal "treino regenerativo". Fred estava nessa turma dos "recolhidos". Ele jogou 68 dos 90 minutos do empate Brasil 0 x 0 México, terça-feira, em Fortaleza. Mesmo assim, não deu as caras no treinamento na relva encharcada.

Luiz Antônio Prósperi, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2014 | 02h04

Seja lá qual foi o motivo de Fred não ter participado do trabalho duro - destinado aos que não enfrentaram o México ou jogaram pouco naquela partida -, o atacante teve tempo de sobra para acompanhar um goleador de nome Luisito Suárez, o messias da vitória do Uruguai por 2 a 1 contra a Inglaterra no gelado Itaquerão.

Se Fred não teve tempo, que dê um jeito de ver o jogo nos teipes. Pode ser que se comova com o feito extraordinário de Luisito. O sujeito estava fora da Copa ao ser submetido a uma cirurgia para correções no joelho avariado. Viveu um drama danado até ver seu nome na lista dos 23 de Óscar Tabárez. Confirmado entre os eleitos da Celeste para disputar o Mundial, passou horas a fio na companhia de um senhorzinho grisalho, o fisiologista da seleção celeste, até sentir confiança de que poderia jogar.

No banco de reservas, sofreu com a derrota humilhante imposta pela surpreendente Costa Rica na primeira rodada do Grupo D. Sentiu de perto que o Uruguai poderia voltar para casa bem mais cedo do que se imaginava. Alguma coisa ele teria de fazer na tentativa de evitar essa tragédia. O que restava era se oferecer para jogar, mesmo com dores e sem saber quanto tempo de jogo suportaria ficar no campo.

Vestiu a camisa 9 celeste e foi encarar os ingleses. Com uma dedicação impressionante, digna de se perpetuar na história, arrebentou a Inglaterra. Abriu o caminho da vitória aos 39 do primeiro tempo e consolidou o triunfo aos 39 do segundo (a Fifa crava aos 40 minutos), pouco depois de os ingleses beliscarem o empate.

Nos dois gols, Luisito derramou lágrimas. Ao final do jogo, saiu condecorado e nos ombros de seus companheiros, que carregaram o herói e seu choro.

Essa ópera de Suárez pode muito bem servir de lição para Fred. Nenhum jogador da atual seleção teve tanto respaldo de Felipão, e mais ainda de Parreira, como Fred. Os chefes defenderam o atacante antes e depois da convocação. Nesses dias de Copa, os dois têm depositado no goleador do Fluminense toda a confiança do mundo.

Fred ainda não deu nenhuma boa resposta a Felipão e Parreira em dois jogos na Copa. No confronto diante dos mexicanos parecia em outro planeta. Nem serviu de escora para Neymar e Oscar. Ficou ali, ao som dos mariachis, a ver navios.

Camisa 9 que se preza não tem o direito de dormitar um segundo que seja. Nem arrumar desculpa de que a bola não chega aos seus pés. Camisa 9 de respeito sabe que vive de restos dentro da grande área. Dificilmente vai ser servido como se estivesse em um banquete. Tem de brigar pela bola, seja ela invisível ou não, imaginária ou real. Não pode desperdiçar um naco de pão mesmo se estiver de estômago cheio.

Luisito Suárez tem esse espírito impregnado no número 9 que carrega nas costas. Nem precisa do respaldo de seu treinador para entrar na luta por um gol, um mísero gol que seja. Centroavante não comunga com a rede imóvel. Centroavante gosta de ver a rede balançar. Fred parece distante desse mundo. Ou ele acorda ou vai ter de ouvir que a Copa foi de Luisito.

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