DIÁRIO DA SELEÇÃO: Treino é treino e jogo é jogo

A seleção brasileira que se cuide. Um resultado magro diante de Camarões, mesmo com a classificação garantida às oitavas de final, pode aumentar a desconfiança de que o time tem treinado pouco. Assim como a neblina surge do nada por trás das montanhas que circundam a Granja Comary, ontem a concentração do Brasil foi contagiada pelas críticas de que Felipão afrouxou os jogadores. A base legal para tamanha desconfiança vem dos dias em que a seleção não pegou no batente para valer. Da terça-feira, dia do jogo com o México, até ontem, o escrete trabalhou forte só nesta sexta-feira.

Luiz Antônio Prósperi , O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2014 | 02h01

Difícil dizer quem está com a razão nesse debate. Um séquito de 800 a mil jornalistas acompanha o dia a dia da seleção na Granja. O acesso aos jogadores e comissão técnica se dá apenas nas entrevistas coletivas e nos comunicados oficiais. Pouco se sabe dos motivos que levam o comando da seleção a intensificar ou não a carga de trabalho.

Nesses momentos surgem "especialistas" de todos os matizes a garantir que o Brasil deveria treinar mais pesado para o time chegar forte nos jogos. Quase ninguém defende a tese de que não é hora de pisar no acelerador, sob pena de perder uma peça importante por fadiga de material.

O que não dá para contestar é o imenso banco de dados do qual a comissão técnica dispõe sobre o organismo dos atletas e também o lado emocional de cada um. Tudo está tabulado nas planilhas dos médicos, fisiologistas, psicólogos e preparadores físicos da seleção. Felipão e Parreira têm acesso aos dados e, com eles, podem montar sua estratégia de trabalho na condução da seleção.

Diz Parreira que nunca na história da seleção nas Copas, a programação do time foi feita com tanta antecedência e critério como a que foi elaborada para este time que luta pelo hexa em território nacional. Parreira idealizou a programação com base na sua experiência de nove Copas em funções como preparador físico e treinador. Convenhamos, não é um aprendiz.

A discussão se o Brasil treina pouco ou não é tão efêmera quanto a neblina que vem do nada dessas montanhas um tanto sinistras de Teresópolis. Felipão deveria ficar irritado com esses questionamentos. A rigor, a seleção não tem necessidade de se matar nos treinamentos entre um jogo e outro, sempre intercalado por uma viagem e outra nesta primeira fase da Copa do Mundo. O que o time precisa é jogar bola, ser um pouco mais criativo, alegre, e isso não se consegue aumentando a carga de trabalho.

Para quem não tem na memória, ao escrete foram concedidos apenas 16 dias de preparação pré-Mundial. E quando a brincadeira começou, não havia muitas datas disponíveis para organizar o time. Daí a insistência de Felipão, no início dos trabalhos, para que os jogadores resgatassem tudo o que fizeram de bom na vitoriosa campanha da Copa das Confederações no ano passado. Era recuperar aquele modelo e adaptar à Copa do Mundo para a seleção voar novamente.

De cara, a iniciativa de Felipão parecia ser a mais acertada. Faltava combinar com os adversários que o Brasil seria aquela motoniveladora. Os rivais, ao que parece, não concordaram ou ainda não concordam com as "regras estabelecidas" pela seleção e trataram de impedir o rolo compressor de passar por cima de tudo.

David Luiz foi um dos poucos a reconhecer essa nova realidade. "Na Copa das Confederações só nós (Brasil) tínhamos a ambição de ser campeão. Agora, na Copa, todos também construíram o sonho como o nosso de tocar a mão na taça e ser campeão do mundo."

David tem razão. E não vai ser com um treino a mais ou não que a seleção fará do sonho dos adversários um pesadelo. O negócio, daqui para frente, é jogar bola.

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