Diários de motocicleta, na Copa

Em 1952, dois argentinos saíram de motocicleta em uma grande aventura de 8.000 km, para conhecer e explorar o que realmente significava ser sul-americano e saber que território era este. Um deles, Ernesto Guevara, estudante de Medicina com 24 anos, ficou tão impressionado e influenciado pelo que viu que, alguns anos depois, viria a se tornar um dos grandes líderes de uma das maiores e mais belas revoluções da história da humanidade, a cubana.

Raí, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2014 | 02h05

Se estivesse vivo, o jovem Che iniciaria sua viagem de moto em Porto Iguaçu, na Ponte Internacional da Fraternidade. Com certeza, nas primeiras páginas de seu diário, no 25/6/2014 constaria o jogo Argentina x Nigéria, em Porto Alegre. Assistiria, comovido, a essa grande movimentação dos hermanos argentinos em campos brasileiros.

De maneira nenhuma perderia essa oportunidade (que estamos vivendo com a Copa) para disseminar seus ideais. Não necessariamente os do socialismo, mas, com certeza, os de uma América Latina forte, unida e mais justa!

Precisaria ser cego para não ver que estamos vivendo, nesta Copa do Mundo no Brasil, o momento de maior integração e identificação entre os povos da América Latina já percebido até hoje. E 2014 será marcado por ser, verdadeiramente - de forma legítima e espontânea -, a primeira Copa do Mundo de um bloco (o Mercobolasul ou o Bola-Ivariano) passada no Brasil.

Como é lindo ver colombianos, argentinos, chilenos, equatorianos, mexicanos etc. se sentirem em casa aqui em nosso País. Estamos sendo abraçados e assumidos, como grandes líderes de toda uma poderosa região. Como é surpreendente nos emocionarmos com as vitórias de nossos vizinhos, sobretudo porque sentimos orgulho e nos identificamos com essa forma guerreira e quente de jogar.

Neste momento, em que a União Europeia dá guinada preocupante para a extrema direita, os Estados Unidos já não são mais tão fortes, e a toda poderosa China insiste em não se abrir aos direitos humanos, não seria hora de repensarmos nosso papel como bloco, e o Brasil como líder deste? Não estaria a bola mostrando que pode ser este um possível início (mais do que um passo, um passe) para uma nova era, de nova posição latino-americana no mundo?

Muitos definem como invasão o que está acontecendo em nossos estádios, ocupados por nossos vizinhos. Eu, a partir de agora, já prefiro ver esses acontecimentos como uma grande integração, talvez a maior de todas.

Impossível, para mim, não traçar paralelos entre o espírito revolucionário de Ernesto Guevara com a raça de Luisito Celeste, Vargas ou Joel Campbell.

Sem dúvida nenhuma, nunca antes na história deste mundo-futebol o fator "jogar em casa" teve tamanha influência no resultado dos jogos. Fica cada vez mais evidente que essa energia sul-americana transforma nossos atletas em guerreiros e influencia, de maneira magnética, os caminhos da esfera.

RAÍ

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