Dinamite vive seu calvário com rebaixamento do Vasco

Presidente do clube teve até de tomar remédios para suportar a dor da queda à Série B

Sílvio Barsetti, O Estadao de S.Paulo

09 de dezembro de 2008 | 00h00

Os olhos de Roberto Dinamite pareciam envoltos por uma nuvem cinzenta e as palavras saíam arrastadas como que anunciando as seqüelas do maior golpe sofrido pelo Vasco em 110 anos de existência. Foram quatro drágeas de sedativos e anti-hipertensivos em menos de 24 horas. O final da noite de domingo do presidente e maior ídolo do clube teve ainda outro momento delicado: a filha Roberta, de 20 anos, passou mal por causa do rebaixamento do Vasco. Uma médica foi chamada para atendê-la em casa.Dinamite chorou, recebeu o apoio da família e de amigos e tentou dormir cedo. Fez uso dos remédios e custou a entender que minutos depois alguém lhe trazia um pedaço de pizza na cama. Estava grogue.Ontem pela manhã, com a pressão sob controle, se dizia disposto a enfrentar "os dias mais difíceis" de sua vida. No entanto, as olheiras profundas, a voz pausada e meio rouca, entremeadas por um "sorriso nervoso", foram as marcas da sua primeira entrevista coletiva, após a queda inédita do Vasco à Série B do Brasileiro.Solidarizou-se com os torcedores do clube, em especial com o jovem Fernando, que por pouco não transformou uma disputa esportiva em tragédia. O rapaz se pendurou no teto da arquibancada de São Januário após a derrota para o Vitória (2 a 0) e ameaçou se atirar. Foi contido por policiais e bombeiros. "Ele deu demonstração de amor e carinho pelo clube."Admitiu culpa no processo que levou o Vasco à Série B, mas a quis dividir com o grupo que comandou o clube por vários anos - não fez alusão direta ao nome do ex-presidente Eurico Miranda, apesar de deixar claro que ao ocupar seu gabinete em São Januário não havia recursos a receber da televisão."Seis cotas mensais já tinham sido antecipadas. Como poderia reforçar o time?"Embora as perguntas mais freqüentes versassem sobre reforços e a manutenção ou não do técnico Renato Gaúcho, não quis anunciar nada especificamente. No decorrer da entrevista, porém, deixou escapar que gostaria de conversar com o técnico para depois comunicar a decisão. Nem precisaria de tanto zelo. O próprio Renato já disse que "está fora do Vasco."Quase uma hora de conferência e as frases mais repetidas soavam como um desafio, desabafo ou algo que elevasse a auto-estima dos próprios dirigentes do clube, perfilados à mesa em que Dinamite tentava equilibrar razão e emoção: "O Vasco vai montar um grande time para ganhar a 2ª Divisão, o Brasileiro da Série A em 2010 e tudo o que vier a disputar!" Citou o Corinthians como exemplo de organização em 2008. "Fez uma equipe boa e competitiva." E desejou boa sorte à Portuguesa, outro que sucumbiu na reta final e caiu para a Série B. Dinamite chegou a encerrar a entrevista três vezes. Fazia meia volta, repensava sua atitude e decidia continuar. Eram evidentes a angústia e a tristeza de quem se viu, afinal, impotente de impedir a queda do time do qual não é somente o presidente, mas acima de tudo torcedor. Para resgatar o Vasco, conta com boas companhias. "Nunca me vi só, nem como ídolo, artilheiro ou presidente."

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