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Antero Greco
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Dinheiro pelo ladrão

Muricy Ramalho disse coisas interessantes, no meio da semana, que passaram um tanto batidas. Depois da primeira vitória do São Paulo no Campeonato Paulista, o técnico admitiu a necessidade de contar com alguns jogadores a mais, para completarem o elenco e servirem como alternativas viáveis. E foi enfático: quer profissionais para aproveitar e não apenas para inchar o grupo. "Não adianta contratar só para mostrar serviço para a torcida", avisou. "Isso tem um custo, e depois é difícil tirar."

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2014 | 02h03

Muricy foi preciso. Sem floreios, sem rococó na conversa - que não fazem seu estilo -, atingiu o alvo e tocou num ponto delicado e comum no futebol. Em cada início de temporada, dirigentes costumam apresentar baciadas de caras novas, todos saudados como grandes tacadas, movimentos inteligentes para tornar a equipe competitiva. Em geral, chegam com o aval dos treinadores, e os cartolas posam sorridentes ao lado dos recém-chegados, na clássica cerimônia de entrega da camisa e entrevista coletiva.

Com as exceções de praxe, muitos somem na poeira dos campeonatos. Não passam de cometinhas, que aparecem, têm algum brilhareco, para em seguida sumir e cair no esquecimento. Exemplos há às centenas, em todos os times, sobretudo nos grandes, os mais pressionados para trazer novidades que deem esperança aos fãs.

Assim, de memória, dá pra lembrar casos recentes. O São Paulo teve Clemente Rodrigues, Caramelo, Roni, que não deixaram rastro. O Palmeiras trouxe Léo Gago e Rondinelly, ambos do Grêmio, como parte do acordo para a cessão de Barcos. O que fizeram? Alguém se lembra? O Corinthians contou com Maldonado, que mal esquentou banco e se foi. O Santos investiu em Marcos Assunção, que passou um tempão de molho e deixou a Vila sem deixar saudade na segunda passagem. Se fuçarmos, encontraremos mais.

Ninguém chega de graça. Não vale nem o argumento, muito usado, de que fulano veio sem custo. Isso não existe. Sempre haverá que pagar salários, bonificações, luvas, comissões para quem indicou e outras despesas que fazem o dinheiro do clube sair pelo ladrão, como nas caixas d'água. Existe muito barulho e pouco critério - ou justificativas obscuras para a aposta.

Tenho birra com a palavra "reforço". Ela se tornou banal. Pode reparar que qualquer rapazinho que desembarca numa agremiação é reforço. E quando se fala que determinado clube contratou, sei lá, o 12.º reforço para o ano?! Se é tão complicado acertar com um que valha a pena, imagina com 10, 11, 12?!

Reforço pra valer é o atleta que resolve, que em curtíssimo prazo vira titular, ganha a confiança dos companheiros, da torcida e compensa a grana. A maioria não passa de factoide para disfarçar falta de planejamento, para dizer o mínimo. Por isso, tem outra conversa que se ouve em cada virada de ano: o treinador pretende trabalhar com 25 jogadores, "no máximo". E o elenco tem 35, 40. Como vieram? Quem foi o responsável pelos acertos? Quanto se gastou em pencas de "reforços"? Quem paga?

Por isso, faz bem Muricy em pedir poucos, desde que sejam bons. Tomara que resista à tentação de aceitar uma batelada para fazer cartaz de dirigente. (Cá entre nós: o São Paulo não é tão ruim assim. Mas dá para melhorar. Com critério.)

Caso Neymar. Convenhamos, foi uma encenação e tanto. Neymar estava amarradíssimo ao Barcelona (como o Estado antecipou com mais de ano de antecedência, sob desconfiança da concorrência), e mesmo assim repetia à exaustão que não sairia do Santos antes do fim do contrato. Daí se criou um circo danado, com a necessidade de ganhar experiência antes da Copa como pano de fundo, para provar que a ida para a Espanha era inevitável.

Agora se sabe a razão da pressa repentina: Neymar e staff ganharam, na transação, o triplo do que oficialmente foi para o Santos. O maior drible da carreira dele.

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