Joseph Guzy/USA TODAY Sports
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Diretora-geral do Miami Marlins, equipe de beisebol, Kim Ng está pronta há anos

A pioneira executiva do beisebol provou seu valor - repetidas vezes - por três décadas. Vários de seus colegas dizem que não conseguem pensar em um diretor-geral sem experiência no cargo mais qualificado

Tyler Kepner e James Wagner, The New York Times

20 de novembro de 2020 | 10h00

Quando chegou o momento - em que um time da liga principal finalmente contratou uma mulher para dirigir suas operações de beisebol - Kim Ng encontrou uma maneira adequada de contar para sua mãe e quatro irmãs mais novas. Ela as reuniu ao ar livre, em um mirante em Wanaque, Nova Jersey, onde sua mãe mora, e as fez viajarem no tempo.

Kim mostrou um vídeo de 2000 em seu iPad. Na tela, o jovem Derek Jeter, o melhor interbases do atual campeão mundial New York Yankees, presenteava Kim com um prêmio de uma organização para mulheres no ramo de esportes. Ela era a diretora-geral assistente dos Yankees na época, e agora, todos esses anos depois, o homem no vídeo estava dando a ela a chance de um cargo importante com sua própria equipe.

Quando o vídeo terminou, Kim disse à família que se mudaria para Miami. “Ficamos confusas e sem entender direito:‘O que ela está dizendo?’”, contou a mãe de Kim, Virginia Cagar, 73 anos, em entrevista por telefone. “E ela disse: ‘Vou me juntar a Derek Jeter e os Marlins’”

A novidade, anunciada sexta-feira pelo Miami Marlins, time que Jeter dirige como CEO e coproprietário, teve um impacto sísmico no esporte. Nunca antes uma mulher ascendeu ao papel de diretora-geral em tempo integral em qualquer uma das principais ligas masculinas da América do Norte. Depois de três décadas como executiva do Chicago White Sox, dos Yankees, do Los Angeles Dodgers e da Major League Baseball (MLB), Kim finalmente tinha um cargo de destaque.

“Eu não era a garota que sempre seguia o resto do grupo”, disse Kim em uma entrevista coletiva em Miami na segunda-feira. “Não era eu. Eu fazia o que tinha que fazer e não me importava com o que as pessoas diziam. Eu só decidia e fazia.”

Kim, 52 anos, também é a segunda pessoa de ascendência asiática - depois de Farhan Zaidi do San Francisco Giants - a liderar um departamento de operações de beisebol. Os pais de Kim, ambos cidadãos americanos de ascendência chinesa, foram para a faculdade em Indiana, onde Kim nasceu. Seu pai, Jin Ng, que morreu quando ela tinha 11 anos, trabalhava como contador. Sua mãe, que nasceu na Tailândia, mas se mudou para Long Island aos 5 anos, trabalhava como bancária.

Kim passou a maior parte de sua infância na área de Nova York, onde sua família se tornou fã dos Yankees. Ela frequentou a escola pública 173 no Queens, onde jogou stickball com amigos, usando tampas de bueiros e carros como bases. A família então se mudou para Glen Cove em Long Island, onde Kim jogou em sua primeira liga de softball organizada, e para Ridgewood, Nova Jersey, onde jogou softball e tênis no colégio.

Empoderamento foi um tema importante de sua infância. “As mulheres sempre foram vistas como intrusas em um esporte supostamente masculino”, disse Joe Torre, 80 anos, diretor do Hall da Fama que trabalhou com Kim nos Yankees e nos Dodgers e na sede da MLB. “Essa mudança evoluiu ao longo dos anos quando eles começaram a abrir o clube para jornalistas mulheres, o que obviamente era a coisa certa a fazer. Eu vim de uma família com duas irmãs, e elas eram fãs fiéis do beisebol. A mulher pode saber tanto sobre o jogo quanto o homem, com certeza.”

Na Universidade de Chicago, Kim aprimorou seu amor pelo esporte como uma jogadora obstinada e capitã do time de softball. Kim Vance, que treinava o time na época, disse que Kim era uma jogadora inteligente com uma faceta impetuosa que tornava as companheiras melhores. “É claro que como treinadora sempre gostei de ter essa influência na equipe”, disse Kim Vance. “Ela era uma verdadeira líder natural.”

Kim escreveu sua monografia sobre o impacto do Título IX, a lei federal inovadora de 1972 que expandiu enormemente o acesso das mulheres aos esportes ao proibir a discriminação de gênero em instituições educacionais. Ela se formou em 1990 em Políticas Públicas e fez um estágio no White Sox.

“Um estágio na época era meio que novidade para mim, e eu disse: ‘Bem, qual é o meu retorno sobre o investimento?’”, disse Virginia, rindo ao lembrar a conversa com sua filha a respeito do custo de financiamento de sua educação universitária privada. "Ela disse:‘Nada’. Ela estava trabalhando de graça."

Trabalhando com os executivos Ron Schueler e Dan Evans, Kim lidou com projetos especiais e casos de mediação salarial com os White Sox, ganhando uma promoção a diretora assistente de operações de beisebol e impressionando os dirigentes do clube com sua curiosidade e ávido entendimento das regras e procedimentos. Ela se mudou em 1997 para o escritório da Liga Americana, onde era responsável pela aprovação das transações das equipes, e um ano depois tornou-se diretora-geral assistente dos Yankees, trabalhando com Brian Cashman ao longo de 2001.

Aquelas foram temporadas gloriosas para os Yankees, que venceram três World Series consecutivos. Kim se envolvia com o time, passando cada vez mais tempo em torno de jogadores de nível profissional como Jeter e expandindo seu conhecimento em campo aprendendo com o arquiteto da equipe, Gene Michael, e seu diretor de olheiros amador, Damon Oppenheimer. Kim queria saber como os olheiros viam o jogo, disse Oppenheimer, e quais estatísticas eles valorizavam. “Ela tinha ótimas habilidades com as pessoas, e isso foi o que mais se destacou para mim”, disse Oppenheimer. “Ela era provavelmente a pessoa mais inteligente da sala e nunca fez com que os demais se sentissem inferiores.”

Kim partiu para os Dodgers em 2002, novamente se juntando a Evans, que era o diretor-geral da equipe. Evans designou Kim para supervisionar o desenvolvimento e a observação dos jogadores. Às vezes, ele a enviava em viagens, tornando Kim a pessoa-chave tanto para a equipe como para os veículos de imprensa.

Em uma dessas viagens, Evans fez o que um mentor faz, mapeando o caminho a seguir para Kim. Algum dia em breve, ele disse a Kim, ela poderia ter a chance de uma entrevista de emprego para ser diretora-geral, então ela deveria começar a planejar sua estratégia. Kim sorriu. “Ela tem aquele sorrisinho travesso”, disse Evans, “e ela continuou, ‘Você acha que já não pensei nisso?’”

O rumor estava se espalhando. Quando Jim Duquette se tornou o diretor-geral do New York Mets em 2003, ele tentou contratar Kim como sua assistente. Ela ficou com os Dodgers e, logo depois, em uma conferência em Phoenix, um assistente especial do Mets zombou da herança chinesa de Kim enquanto fazia piadas em um bar.

Duquette demitiu o assistente - um ex-arremessador, Bill Singer, que alegou não se lembrar dos comentários - e saiu com ainda mais respeito por Kim. “Aqui estava uma situação extremamente difícil que se tornou pública, e ela lidou com isso com muita graça e classe”, disse Duquette. “Ela tinha todo o direito de ficar chateada e com raiva, e dizer algo como, 'Em algum momento, vou perdoar'. Mas ela foi muito, muito firme com Bill em particular e conosco como uma organização: não foi aceitável, em qualquer circunstância.”

Foi com os Dodgers, disse Kim, que ela primeiro acreditou que poderia lidar com o cargo de diretora-geral, embora a equipe tenha contratado Paul DePodesta para suceder a Evans e, em seguida, Ned Colletti para substituir DePodesta após ter entrevistado Kim.

Colletti aumentou as responsabilidades de Kim, atribuindo a ela seus contratos para negociar (como ela havia feito com os Yankees) e dando-lhe a liderança em algumas negociações comerciais. Ele a recomendou para vagas de direção-geral e, depois disso, Kim participou de entrevistas para o cargo em times como Seattle Mariners, Los Angeles Angels, San Diego Padres e Giants. “Eu dizia: ‘Como foi?’, e, alguns dias depois, ela recebia uma ligação informando que estavam indo em uma direção diferente”, disse Colletti. “Dava para ver a decepção, mas ela persistia - e acho, talvez, que quanto mais investia nisso, mais se recusava a desistir. Essa é uma característica tremenda.”

Os Dodgers venceram o campeonato da Liga Nacional três vezes sob o comando de Colletti, duas vezes com Torre como diretor. Torre disse que desenvolveu uma afinidade forte com Kim, admirando suas habilidades de comunicação e ampla experiência. “Não havia nenhum aspecto do jogo com o qual ela não estivesse familiarizada”, disse Torre. “Era uma conversa muito confortável o tempo todo, porque você não precisava tentar medir suas palavras quando estava perto dela. Você poderia falar com ela da mesma maneira que falaria no vestiário do clube. Ela fazia parte do grupo. Eu evito dizer 'um dos caras' - mas ela se encaixou muito bem, vamos colocar dessa forma.”

Ela se encaixava tão bem que, quando Torre aceitou um emprego no escritório central da MLB, em 2011, convenceu Kim a se juntar a ele em Nova York. Ela atuou como vice-presidente sênior de operações de beisebol por 10 temporadas, ajudando a definir e aplicar protocolos para contratações internacionais, entre outras funções. Torre certa vez acompanhou Kim em uma viagem à República Dominicana, e ele se lembra dela impondo atenção e respeito. “Isso não é fácil”, disse Torre. “Lá, eles dirigem o próprio show. Mas ela foi até lá e eles ficaram atentos a cada palavra que ela dizia.”

O trabalho também deu a Kim uma visão do funcionamento de todas as 30 equipes da liga principal. Ela continuou participando de entrevistas para o cargo de diretor-geral, mas Torre disse que às vezes se perguntava se as equipes a levavam a sério. Não havia como negar a força do currículo de Kim, mas ninguém parecia disposto a quebrar a barreira de gênero.

Com Jeter - que buscava um substituto para Michael Hill, cujo contrato não foi renovado - Kim teve mais do que um amigo defensor. Jeter, cuja mãe é branca e o pai é negro, valorizou a diversidade na reformulação dos Marlins desde que assumiu como CEO e a copropriedade com Bruce Sherman no final de 2017. A diretora operacional da equipe, Caroline O'Connor, está entre as mulheres mais bem classificadas da MLB e pessoas que não são brancas ocupam cargos influentes em toda a diretoria dos Marlins.

No entanto, Jeter também é famoso por ser um integrante do Hall da Fama e cinco vezes campeão do World Series e não se tornou proprietário para perder. Com os Marlins saindo de sua primeira aparição nos playoffs em 17 anos, a motivação de Jeter para contratar Kim era simples: ele acreditava que ela era a mais adequada para o trabalho.

“Ele a conhecia há 22 anos”, disse Suzyn Waldman, comentarista de rádio dos Yankees e pioneira em locução esportiva. “Derek é muito meticuloso e também não quer fracassar. Você acha que ele escolheria alguém que acha que não poderia ajudar a equipe apenas para criar uma certa imagem?” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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