Dirigentes prometem refundar a Fifa

Dirigentes prometem refundar a Fifa

A Fifa acumula um buraco de US$ 1 bilhão para o orçamento da Copa do Mundo de 2018 e, diante dos escândalos de corrupção, a entidade será praticamente refundada hoje, 111 anos depois de sua criação. Um acordo entre dirigentes permitirá a implementação de uma nova constituição para a Fifa que, abalada por prisões de dirigentes e fuga dos patrocinadores, registrou o primeiro déficit em 14 anos.

Jamil Chade / ZURIQUE, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2015 | 02h04

Os advogados contratados pela Fifa para limpar a crise, do escritório americano Quinn Emanuel, fizeram ontem um alerta claro: os dirigentes que ainda estão no poder precisam "se livrar" de Joseph Blatter e Michel Platini e transformar a Fifa em uma vítima da corrupção. Caso contrário, é a sobrevivência da entidade que estará ameaçada.

Com a Copa de 2014 no Brasil, a Fifa havia atingido seu auge financeiro, com lucros e uma renda recorde de US$ 5,7 bilhões. Mas uma ação policial em maio mudou tudo. Ontem, ao apresentar os números aos executivos, o departamento financeiro indicou que a queda da renda ocorreu por causa da fuga de patrocinadores, que hesitam em assinar qualquer tipo de acordo comercial com a Fifa. No total, o déficit em 2015 foi de US$ 103 milhões.

Mas os problemas financeiros também vêm dos custos legais diante da contratação de advogados para defender alguns dos principais cartolas, entre eles Joseph Blatter.

Até mesmo a Copa de 2018 acabou afetada. Para o orçamento do evento, que se estima em US$ 5 bilhões, cerca de 20% não conseguiram ser arrecadados. O valor chega em US$ 1 bilhão em receitas.

Para o Mundial de Clubes no Japão, em dezembro, a Toyota abandonou o patrocínio que prestava ao evento da Fifa e agora a conta ficará toda com os japoneses. Em uma carta enviada ontem aos dirigentes, os patrocinadores voltaram a alertar que a reforma precisa ocorrer e as mudanças devem ser monitoradas de forma independente.

"A crise é muito profunda e precisamos tratar dela com humildade", disse Michel D'Hooghe, um dos membros do Comitê Executivo da Fifa.

Nova entidade. Para reverter a crise financeira, os executivos sabem que precisam aprovar uma reforma ainda hoje. Pelo menos três multinacionais estariam dispostas a assinar um acordo com a entidade. Mas querem garantias de que as reformas vão ocorrer.

Na Justiça norte-americana, uma recomendação foi emitida em setembro ordenando que todas as empresas sejam obrigadas a denunciar práticas de corrupção com entidades com as quais mantêm contratos. Quem violar será acusada de cumplicidade.

A refundação da Fifa não veio sem um conflito interno. A proposta original, de Domenico Scala, foi bombardeada por dirigentes asiáticos e por aliados de Blatter. A ideia de colocar limite a mandatos havia sido enterrada. Mas, pressionados pelos cartolas dos EUA e apoiados pela Conmebol, a reforma conseguiu avançar.

"Sou contra. Mas se isso é o que precisa para restabelecer a imagem da Fifa, vou aceitar", prometeu Ahmed Al Sabah, membro do Comitê Executivo e um dos homens mais fortes hoje na entidade. "A prioridade é a imagem da Fifa."

Enquanto os americanos sabiam que apenas uma reforma profunda poderia salvar a imagem do futebol nos EUA, na América do Sul a direção da Conmebol precisava dar um sinal de que a gestão passaria por mudanças. Pelo menos sete dirigentes da região foram presos ou afastados.

"Vamos aceitar o pacote inteiro", disse Juan Napout, presidente da Conmebol, ao Estado.

Mudanças. O Estado apurou que o pacote terá um limite de três mandatos para presidentes e executivos, o que significa que um dirigente pode ficar no máximo 12 anos no poder.

Na avaliação dos encarregados pelas reformas, ao limitar os mandatos, a Fifa estaria impedindo a formação de "clubes" dentro da entidade que controlariam decisões importantes.

O Comitê Executivo ainda será transformado em Conselho da Fifa e decisões técnicas sobre contratos passarão a ser examinadas por um grupo de especialista, justamente para evitar que influências políticas determinem a escolha de parceiros comerciais.

Outra decisão será a de publicar o salário do presidente e dos diretores. A meta é a de revelar o que de fato a Fifa paga a seus dirigentes e quanto vai ao futebol.

Um grupo independente ainda vai fazer um "exame de integridade" em cada um dos novos membros do Conselho da Fifa para garantir que nenhum membro esteja sob suspeita em seus respectivos países.

Depois de aprovada hoje, a reforma será colocada à votação para as 209 federações nacionais, em fevereiro. Mas não deverá haver mudanças.

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