Distribuição de ingressos evita fiasco de público

Vizinhos do Engenhão assistiram a Brasil x Bolívia sem nenhum custo

Bruno Lousada, Marcius Azevedo e Sílvio Barsetti, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2008 | 00h00

Uma farta distribuição de ingressos agitou a manhã de ontem nos arredores do Estádio Olímpico João Havelange, o Engenhão, local do jogo entre Brasil e Bolívia. Cada morador que se aproximava de bancas de jornais, mercadinhos, padarias, oficinas mecânicas e outras lojas comerciais do bairro de Engenho de Dentro, na zona norte do Rio, era abordado por homens bem vestidos que ofereciam dois bilhetes por pessoa."Só assim vou conseguir ver a partida, não tinha dinheiro para ir à festa", comemorou o técnico em telefonia Cosme Moreira, de 58 anos, ingresso do setor sul em mãos. "Eu levantei cedo e fiz o de sempre: fui ao jornaleiro (na Rua José dos Reis). Do lado da banca tinha um rapaz que me perguntou se eu queria ir ao jogo, de graça. Ganhei duas entradas", prosseguiu.Duas horas e meia antes do jogo, Cosme exibia o "troféu" aos amigos num botequim, na esquina da José dos Reis com Rua da Abolição. No quarteirão em frente a um dos principais acessos do Engenhão mora o sambista Noca da Portela, da velha guarda da tradicional agremiação carioca. Noca não quis atravessar a rua para prestigiar o time de Dunga. Mas confirmou a versão dos vizinhos."Foi cedo, por volta das 7h30, 8 horas, que os caras chegaram em vários carros e ficaram distribuindo os ingressos", contou. "O pessoal lá de casa pensava que era ?santinho? de político. Mas era bilhete para o jogo do Brasil, a custo zero."De acordo com Noca, a distribuição foi organizada e rápida, "possivelmente para evitar alarde e tumulto". Dona Anita Bougleux, moradora da Rua Doutor Padilha soube da cortesia um pouco atrasada e não conseguiu pegar um ingresso para sua neta. "A prima do meu marido pegou um; quando fiquei sabendo, os rapazes já tinham ido embora."O camelô Edson Rodrigo dos Reis, vendedor de bandeiras, trabalha em dias de jogo no Engenhão em frente a um bar na Rua Henrique Scheidt, em frente ao portão das tribunas do estádio. Ele não pegou bilhete, mas viu quando os ocupantes de automóveis que passaram pelo local, pela manhã, ofereceram ingressos para os vizinhos do Engenhão. "Chegaram a bater palmas em algumas casas. Eu só fui entender do que se tratava quando foram embora."O aposentado Sérgio Montalvão, de 60 anos, comerciante na Avenida Dom Helder Câmara, nas proximidades do estádio, foi outro contemplado. "Eram várias pessoas, discretas, espalhadas pelas ruas do bairro, como se estivessem numa operação quase que secreta. Eles acabavam de dar o bolinho de bilhetes e saíam fora", contou.Até a noite de terça-feira ainda havia 19 mil ingressos à venda. O medo do encalhe talvez tenha levado os organizadores do jogo a adotar a estratégia simpática de dar a oportunidade aos vizinhos do Engenhão de ver Robinho, Luís Fabiano e Ronaldinho Gaúcho de graça, sem despesas extras.POLÍTICOS FAZEM FESTAPolíticos de vários partidos aproveitaram o jogo do Brasil para panfletar no entorno do Engenhão. Ao longe, parecia que a torcida brasileira estava bem animada, com bandeiras de várias cores. Mas havia muito mais referências a partidos políticos do que a clubes cariocas.Antes do jogo, o movimento nas bilheterias era muito pequeno. A Polícia Militar não teve trabalho e só assistia à movimentação.

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