Do deserto para as ruas de Melbourne

Do deserto para as ruas de Melbourne

Vamos imaginar que o GP do Bahrein tenha sido uma corrida fora do padrão, que não mostrou a cara de todos os que podem estar na briga pelo título lá nas últimas das 19 etapas do Mundial. Não é bem assim, porque o domínio de Ferrari e Red Bull já era esperado. Mas como neste domingo, em Melbourne, corre-se na rua, e sob uma temperatura ambiente que pode ficar abaixo da metade da que enfrentamos na primeira corrida, vale a pena esperar pra ver o que acontece e, desses dois primeiros GPs, tirar uma média para se montar a expectativa em relação à temporada.

, O Estadao de S.Paulo

26 de março de 2010 | 00h00

Cautela nunca é demais. Mas como toda aposta exige um certo grau de risco, e a gente nem sempre segue os conselhos que dá aos outros, já fiz minha aposta nos oito primeiros do Mundial 2010, prevendo uma briga acirrada entre Massa e Alonso e o risco de isso favorecer um dos pilotos da Red Bull.

Do Bahrein para a Austrália, os carros vão enfrentar uma temperatura mais próxima daquela da pré-temporada. Haverá menos problemas mecânicos e mais carros brigando para comandar o grid. E aí eu acordo do sonho? Não é apenas sonho esperar que, mesmo depois de uma corrida tão sem graça no Bahrein, o circuito bem desenhado no coração da agradável Melbourne nos traga esta agradável surpresa. Pelo menos, Mercedes e Williams podem incomodar a Ferrari e a Red Bull. Fora elas, McLaren e a Force India, do ótimo Adrian Sutil, seriam zebras bem-vindas.

O circuito de Melbourne não parece, mas é de rua. É muito duro para os freios, quase como o de Montreal, que volta ao calendário este ano. Vamos ver muitos erros com esses novos carros. Por causa do elevado nível de pressão aerodinâmica (downforce), os pneus traseiros sofrem demais.

No ano passado, o modelo macio acabava depois de poucas voltas. Este ano a Bridgestone veio com compostos bem resistentes, o que possibilitou a tática de apenas um pit stop na corrida do Bahrein.

Há quem defenda a obrigatoriedade de, pelo menos, dois pit stops para tornar as corridas mais disputadas. Mas nada garante que esta segunda troca de pneus proporcione mais brigas de posição. Para não restringir o uso de materiais de alta performance, por exemplo, no sistema de freios - o que viria ferir o conceito de alta tecnologia da F-1 -, a única saída é interferir no desenho dos carros.

A eficiência aerodinâmica de um carro de F-1 é tão maximizada que o piloto que vem atrás, buscando uma ultrapassagem, sofre o efeito da turbulência que o impede até de tentar a manobra. Mas este é um assunto para o ano que vem. Os carros de 2010 são estes aí e não há como mudar.

Esta semana eu gravei o Linha de Chegada com Emerson Fittipaldi e o cineasta Roberto Farias, que dirigiu o filme O fabuloso Fittipaldi, rodado durante todo o Mundial de 1972. Era o meu primeiro ano e acompanhei boa parte das gravações. O time era de ponta - além do Roberto, tinha Hector Babenco, Jorge Bodanski, Zé Medeiros e Roberto Ribeiro. Revivemos juntos alguns momentos muito interessantes daquele campeonato de 72, o do primeiro título de um brasileiro na F-1. O filme deve sair em breve em DVD.

Para quem convive com a F-1 de hoje, é difícil imaginar que a equipe de filmagem esteve presente a todos os GPs daquele ano graças a um pedido pessoal que o Emerson fazia diretamente aos organizadores das corridas, que credenciavam a equipe a entrevistar quem quisesse e mostrar as imagens de corrida necessárias. Hoje em dia seria inviável, devido ao alto custo dos direitos de imagens. Já vi muitas negociações sem final feliz. Hoje qualquer câmera xereta na mão de um torcedor que tiver circulando pelo paddock, atrás dos boxes, pode ser apreendida.

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