Dois homens, dois estilos

Boleiros

Antero Greco, antero.greco@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

23 de janeiro de 2009 | 00h00

Kaká e Robinho têm quase a mesma idade, são astros internacionais, jogam na seleção, despertam interesse de clubes mundo a fora e mostram posturas distintas na profissão. O primeiro pavimenta a estrada que pode levá-lo a transformar-se num símbolo do Milan, historicamente um dos clubes mais importantes do futebol. O ex-santista envereda pelo escorregadio caminho da inconstância e constrói a imagem de jogador que força a barra quando quer mudar de camisa. Cria factoide para sair.O risco do estereótipo existe - porém, cada um é a soma de suas escolhas. Com atitudes recentes, ambos estimulam essa comparação. Kaká, com a esnobada na proposta milionária do Manchester City e a declaração de amor à equipe milanesa. Robinho, com o sumiço do próprio Manchester e a especulação de que sua atitude não passa de recurso estratégico para ir para o Chelsea, que há muito o seduz.Não se trata de encarar um como bonzinho e o outro como malandro. Seria preconceito tosco. Mas se pode falar de maturidade, de certeza do que se pretende na carreira. Nisso divergem. Não caio na conversa de que Kaká ouviu o coração, como se divulgou para dar contornos melosos ao seu "fico" no Milan. Tá legal, a manifestação da torcida foi tocante e sempre massageia o ego de qualquer um trabalhar onde se sente bem. De qualquer forma, é bem provável que tenha obtido compensação financeira ao rejeitar a oferta inglesa e mandar para escanteio a pretensão grandiosa de um xeque árabe que respira dinheiro. Se isso aconteceu, foi justo e natural, um processo de valorização de quem é disputado com avidez pelo mercado. Kaká respeita e se identifica com seu time? Ótimo. Mas não deve perder o trem da história.O que aconteceu com Robinho nesse mesmo período? De uma hora para outra se escafedeu do Manchester, que aproveitou folga na tabela, saiu da ilha de Sua Majestade e foi tomar sol na Espanha. A imprensa britânica e dirigentes do clube falavam em ato de indisciplina. O atacante, por meio de seu site (agora tudo acontece na internet), rebateu a onda de críticas sob a alegação de que estava autorizado a dar um pulinho em Santos para cuidar de assuntos pessoais. Não convenceu.Talvez seja maledicência, mas os ingleses insistem em afirmar que foi tudo calculado para o rompimento e a transferência para o Chelsea, que não se conformou com a decisão do Real Madrid, em agosto, de aceitar as libras do Manchester City. Seria a revanche da turma do russo Roman Abramovich e reforço para o time de Felipão. Pode valer a pena, mas será Robinho visto como profissional confiável daqui para a frente? Foi um baita desgaste para sair do Santos, outro tanto para fazer as malas e deixar Madri. O filme está a repetir-se agora. Esse comportamento acontece a todo momento - na imprensa mesmo, para olhar para um mundo que conheço a fundo. Você pode falar que é da vida. Sei, mas é chato e marca quem costuma agir dessa forma. MINUTO DE SILÊNCIOO rádio teve participação decisiva na minha vocação para o jornalismo e na paixão pelo futebol. Gostava de imitar locutores e comentaristas esportivos. Os que mais me encantavam, porém, eram os repórteres de rádio, com seus microfones em forma de tijolões, sua agilidade e destemor, a proximidade com os ídolos da bola. Um de meus heróis de infância era Geraldo Blotta, o GB de milhares de transmissões que enchiam tardes e noites de ouvido grudado no radinho. O GB que chegou junto de Pelé na hora do milésimo gol se foi na semana passada. Mas estará presente, pelo menos pra mim, toda vez em que ouvir algum desses intrépidos repórteres de campo em busca de declaração na bucha. Um indispensável bando de malucos e caras-de-pau.

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