Dois Ronaldos, uma só história

E- mail, que por acaso me chegou às mãos, enviado por Tiago Tranjan, corintiano, para Ronaldo Conde, flamenguista.

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2011 | 00h00

"Caro Ronaldo, é difícil te escrever hoje, já que até teu nome me deixa um gosto amargo na boca e lembranças terríveis. Mas, como você sabe, há Ronaldos e Ronaldos. E é sobre eles que eu queria desabafar com você.

Começo pelo meu Ronaldo. Eu estava não faz muito tempo entre os torcedores que se despencaram para o Parque São Jorge no dia em que ele foi apresentado à torcida. A festa foi grandiosa. Não chegou a ser como a que vocês fizeram para o Ronaldo daí, mas ficou perto.

A imprensa em peso estava lá, todos siderados pelo Fenômeno. Ele já estava gordinho, mas você sabe, a gente vê o que quer ver, não necessariamente o que está realmente diante de nossos olhos.

E daí para frente foi uma comemoração só. Houve aqueles gols lindos contra o São Paulo e o Santos, alguns títulos e depois a coisa foi desandando. Culminou com essa quarta-feira, horrorosa para mim, alegre pra você. Pude ver, depois, lances da partida do teu Ronaldo.

Como já aconteceu por aqui, a imprensa do Rio parece inebriada, embevecida pela presença de tão ilustre jogador. Só dá ele, principalmente nas coberturas de televisão.

Pelos lances que vi, acho que jogou muito pouco contra um adversário que não é melhor que esse Tolima de triste memória. Ou você acha que é?

Me pareceu, sem querer ser de mau agouro, que a história dos dois Ronaldos se confundia, nesta quarta-feira, de maneira estranha e misteriosa.

Parecia um só Ronaldo, cuja história se desse num único dia, onde se via o começo e, mudando de canal, também o final. Mas não quero, como disse ser agourento. Algumas coisas, porém, deixa eu te lembrar. O meu Ronaldo, esse que agora queremos ver pelas costas, começou muito melhor que o teu. Pegou de cara o Palmeiras e foi logo fazendo um gol. Lembra? E de cabeça, no fim do jogo, empatando uma partida que já era dada como perdida.

Bem diferente, repito com todo respeito, do adversário que o teu Ronaldo enfrentou nesta quarta-feira que não me sai da cabeça.

Naturalmente houve os discursos e as declarações de amor habituais. Aquela recepção deve mexer realmente com qualquer um.

Pergunto, porém: será suficiente? Fique de olho. Sei que você é um torcedor daqueles apaixonados, mas inteligente e alerta, por isso não perca de vista a realidade como nós perdemos aqui em São Paulo, e agora não sabemos o que fazer.

Eu, pessoalmente, não posso deixar de ver algumas diferenças entre o meu Ronaldo e o teu. Porque apesar da derrota constrangedora, o meu Ronaldo ficou em campo respondendo as perguntas sozinho e sua cara durante a partida me mostrava um jogador extenuado, exausto, morto. Com o rosto desfigurado pelo cansaço, coisa aliás que cansamos de ver ultimamente, parecia um jogador que queria muito jogar, mas não podia.

O seu Ronaldo me dá a impressão que tem um problema contrário, isto é, pode jogar, mas não quer mais. Um tem alma, mas falta corpo. Outro ainda tem corpo, mas terá alma? Passes de letra e jogadinhas de efeito não vão funcionar.

Cedo o encanto será quebrado e o teu Ronaldo vai ter que mostrar a que veio. Tomara que mostre, pois será cobrado como o meu Ronaldo está sendo cobrado aqui, cobrado pra valer. No futebol cedo ou tarde chega um momento em que marquetingue é marquetingue e jogo é jogo. Abs."

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