Dois tempos, dois grandes jogos

Foram dois clássicos diferentes dentro de um mesmo jogo. Desde o início estava claro que para superar o grande time do Campeonato Paulista o São Paulo precisaria surpreender e jogar acima dos limites criados por seus próprios jogadores na fase de classificação. Ao Santos cabia manter o que vinha sendo construído, resultado de uma mobilidade que foge aos padrões do futebol brasileiro, abastecida por técnica diferenciada, a base desse grande encontro entre veteranos e meninos.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2010 | 00h00

Na história do primeiro tempo, o Santos deixou a impressão de já ter resolvido o confronto. Partiu para o vestiário com dois gols de vantagem e um jogador a mais em campo. Superior em qualquer tipo de comparação, o time controlou a posse de bola e desfrutou dos espaços deixados por uma marcação deficiente e intranquila. Instalou-se no campo do oponente. A semifinal poderia ter acabado ali.

Dorival Junior preferiu manter o time que vem sendo utilizado, com oito jogadores se revezando no ataque, pois nessa formação atacam também os dois laterais e os três do meio-campo. De Marquinhos e Paulo Henrique se espera exatamente isso, mas não se pode abrandar a marcação sobre o volante Arouca, a origem de várias jogadas, como o cruzamento de Léo que virou gol contra de Jr. César.

É muito difícil enfrentar uma equipe com esse tipo de movimentação. Os jogadores circulam pelo campo e a bola, invariavelmente, acaba chegando ao destino correto. O São Paulo era o oposto, com e sem Marlos - expulso aos 33 minutos da primeira etapa -, responsável por conectar meio-campo e ataque, algo que simplesmente não existiu, nem com Jorge Wagner e Hernanes.

Diante de tudo isso, com 2 a 0 no placar e um jogador a menos, o calado torcedor são-paulino não tinha muitos motivos para acreditar numa revolução. Havia um cenário muito favorável ao Santos, sempre faminto, confirmando o que se esperava dele.

Mas como futebol sempre tem dois lados, duas histórias, pode surpreender. Pela primeira vez no Campeonato Paulista, a equipe de Dorival Junior foi dominada, pressionada, sem conseguir encontrar saídas para o ataque. Lenta.

Ricardo Gomes tirou Washington, criou uma segunda linha de quatro no meio-campo, agora com Cicinho, Hernanes, Rodrigo Souto e Jorge Wagner. Com um jogador a menos, o São Paulo retornou a campo mobilizado, correndo o dobro, por quem estava no jogo e fora dele.

O time mudou de comportamento, percebeu que se mantivesse o futebol da primeira etapa passaria vergonha diante de seu torcedor. Do outro lado, embora Dorival Junior prefira exaltar as qualidades do adversário, é fato que o time parou, deixou de correr, de se doar como vinha fazendo.

Do jeito que se propõe a jogar, o mesmo futebol coletivo que encanta no ataque é também necessário na defesa. A vantagem parecia tão grande que o time se acomodou. E quando isso acontece, torna-se quase impossível retomar o controle da partida porque ele já foi transferido ao adversário.

Os dois gols são-paulinos no segundo tempo tiveram a participação de Cicinho e apresentaram um Hernanes diferente, muito mais agressivo no controle do meio-campo. Foi o grande momento do São Paulo no campeonato, apesar da derrota, sacramentada aos 44 minutos do segundo tempo.

O jogo deixa lições para ambas as equipes. Apresentou um caminho ao time do São Paulo, de como se deve encarar uma partida, e avisou ao Santos que a disputa tem, pelo menos, 90 minutos. Abandoná-la antes do apito final pode ter péssimas consequências. Diante de tudo isso, a vitória foi magnífica.

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