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Antero Greco
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Dolorosa agonia

A Portuguesa agoniza, atacada por anemia profunda e, talvez, irreversível. Faltam-lhe títulos, público, ideias, renovação, ousadia administrativa. Há carência de ações firmes, mas sobretudo de afeto. Um dos símbolos mais simpáticos do futebol brasileiro está à míngua, por erros internos e indiferença generalizada. Poucos se preocupam de fato com o destino da nau lusitana. (Taí, não resisti ao lugar-comum de associar o clube aos intrépidos antepassados navegadores.)

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2014 | 02h01

A decadência se torna chocante com o rebaixamento para a Série C, menos de um ano depois de naufragar para a B com canetada do tribunal esportivo, motivada por grosseiro - e sombrio, mal explicado - erro. Mas a ruína não é de agora, não veio com a escalação cretina e primária do atacante Héverton (então suspenso), nos minutos finais do jogo com o Grêmio, na última rodada do Brasileiro de 2013. O resultado não interferia no destino do time, já livre da ameaça do descenso, e ainda assim o moço entrou em campo, até hoje não se sabe a mando de quem.

O atrofiamento da Lusa é processo longo. Deve-se, em grande parte, à pouca sensibilidade dos dirigentes, que a comandaram como se fosse simples grêmio recreativo de imigrantes portugueses. Esse entendimento cabia nos primórdios, nos anos 20 do século passado, quando tudo era diferente - a cidade, o Estado, o País. Na época, São Paulo era pouco mais que província e tinham peso comunidades como as dos lusitanos e dos italianos.

A turma da Portuguesa não percebeu, há décadas, a mudança no perfil do próprio torcedor. Os cartolas pararam no tempo ao se aferrarem às raízes e acreditar que lhes bastava representar uma colônia tradicional. Sentimento bonito, terno e ultrapassado. Não se deve esquecer a terra de origem, mas é preciso olhar realidade e futuro.

Tudo em volta da Lusa mudou, menos ela. Houve o momento em que era imprescindível abrir-se, ampliar o foco. Não dava mais para continuar com o carimbo, delicado e inútil, de "clube de colônia". Vasco, Cruzeiro, Palmeiras também surgiram de maneira idêntica, só que alargaram horizontes e mantiveram importância nacional. Com tombos, crises, sustos e sucessos permanecem mais vivos do que nunca. E jamais renegaram a ascendência.

A Lusa, ao contrário, estagnou e vê fechar-se o cerco, a corda a apertar o nó na garganta. A sede é valiosa, acolhedora, bem localizada, mas esvaziada. Foi-se a fase em que abrigava milhares de associados, não só aficionados, torcedores, portugueses e descendentes, mas gente da região, que lotava piscinas, ginásios, playgrounds, áreas de lazer. As pessoas ganharam opções nos condomínios e fugiram do modelo habitual de clube esportivo. Fenômeno de movimentação da cidade, que atingiu também o Juventus, na Mooca.

A queda de receitas paralelas expôs a deficiência no futebol, que levava vida discreta, sem alarde, nos torneios profissionais. Não dava vexames nem grandes emoções. Até que embicou ladeira abaixo e parece não ter freio. Há muito a Lusa deixou de ser referência, até na formação de jogadores, uma de suas especialidades. O antigo celeiro de craques desabou, com desdobramentos nas finanças e na qualidade técnica da equipe.

Os rebaixamentos se sucederam, o público fugiu e a Lusa se meteu em beco escuro. Tão sombrio quanto o episódio da escalação de Héverton. Fato polêmico, que fez barulho e, na surdina, caiu no esquecimento. Em que resultou a severa sindicância interna para apurar os fatos? A que conclusões chegou o Ministério Público, que admitia indícios graves de irregularidades? Ninguém tocou mais no assunto - nem a Lusa, nem a FPF, nem a CBF, sequer a imprensa. Outra aberração engavetada.

A diretoria fala em pôr abaixo o Canindé e reconstruí-lo, moderno e menor. Adequá-lo ao tamanho da torcida e às necessidades do clube. Pode ajudar. Torço para que a Lusa recobre fôlego, por tudo o que representa. Mas temo que não a teremos mais como agremiação poderosa.

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