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Antero Greco
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Dor de cotovelo

Sei que vou ligar a televisão hoje e ficarei com raiva. Porque as imagens da telinha nos jogarão na cara que somos torcedores de segunda linha. Ou melhor, o poderoso meio de comunicação só confirmará o que já intuímos, ou seja, a impressão de que por muito tempo ainda não passaremos de espectadores dos shows europeus no futebol.

ANTERO GRECO,

18 de agosto de 2013 | 02h04

O tabefe dos colonizadores virá com a primeira apresentação de Neymar em partidas oficiais pelo Barcelona. A estreia está marcada para o início da tarde, na abertura do Campeonato Espanhol, contra o Levante, uma espécie de Bragantino local, com vocação de coadjuvante.

O moço desfilará ao lado de Xavi, Iniesta, Messi e outros figurões internacionais. Terá como missão provar que não foram inúteis os milhões de euros investidos na contratação e na briga com o Real Madrid para tirá-lo do Santos. Além disso, enfim poderá usufruir da oportunidade de evoluir em centro avançado do mundo da bola, como tantos desejavam. Só assim abreviará o caminho para chegar ao topo, de acordo com previsões otimistas.

Torço por Neymar, como por qualquer rapaz habilidoso, independentemente de nacionalidade. No caso dele, a simpatia é pouco maior, por se tratar de patrício nosso e o que de melhor produzimos nos últimos anos nos gramados. Tem boa cabeça, arte e inteligência de sobra. Quer dizer, características adequadas para impor-se e vencer num elenco competitivo e com enorme responsabilidade. Não se espera menos do Barça do que a conquista de títulos de vários matizes.

Não escondo, também, frustração e inconformismo por ver Neymar, tão novo, já fora do País. Pra ser sincero, a camisa do Barcelona não orna nele; o azul e grená o escondem, ao contrário do branco santista, que o ressaltava e o tornava mais leve. Agora até anemia arranjaram para justificar o brilho menor com uniforme tão famoso.

Está bem, é dor de cotovelo lascada. Não consigo aderir à onda dos que defendem a saída de craques para se tornarem celebridades globais. Gostaria que ficassem em casa o máximo possível, antes de baterem asas e alegrarem outras plateias. Torço para que um dia surjam cartolas peitudos e atrevidos o suficiente para barrarem o cerco dos gringos e segurarem as estrelas. Então, viveremos segunda independência.

Por isso, bateu frustração ao acompanhar, durante a semana, o processo de afastamento de Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro da presidência do Santos. O dirigente oficialmente pediu licença por um ano para tratar da saúde - o bem mais valioso que possuímos. Nos bastidores, porém, sussurra-se que a saída foi estratégia para evitar a derrubada por meio de impeachment.

A oposição na Vila se assanhou, sobretudo após os 8 a 0 diante do Barcelona, e tratou de apear do poder um grupo que veio com proposta nova, depois de anos de marasmo. Via no sucesso da empreitada de Luis Alvaro e colaboradores, ao reterem Neymar, a luz para a redenção dos clubes. Pelo visto, não passou de ilusão, varrida por euros e um vexame histórico.

Dessa forma, reforça-se a postura da corrente pragmática, que prefere ceder à persuasão do dinheiro em vez de botar a criatividade para funcionar. Não é à toa que o Atlético-MG nem piscou para mandar Bernard para o desterro de luxo no Shakhtar Donetsk. Resta-nos, portanto, o consolo de vibrar com os gols e dribles deles pela tevê. Somos Barcelona a partir de agora? Você, não sei; eu continuo a usar camisas só de times brasileiros. E tenho uma, só uma paixão clubística. Sei lá, sou de outro tempo nessa esfera.

Tricolor, muita calma. Amigo são-paulino, se puder almoce mais cedo, e não abuse da macarronada ou do churrasco. Fique com estômago leve para acompanhar o clássico com o Flamengo, no Mané Garrincha, pois continua a sensação de que será outro domingo de roer as unhas. Como a turma rubro-negra é instável, dá para ter esperança. Em todo caso, vai bem um chá de cidreira.

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