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Antero Greco
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Dor no peito

Epa, se assustou com o título? Está tudo bem comigo, graças a Deus e aos anjos e santos! Obrigado, amigo, por eventual preocupação. Com isso, também não me refiro a ninguém conhecido. Trata-se só de expressão popular, uma espécie de figura de linguagem pra expressar aflição, um quê de tristeza, com uma dose de nostalgia.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2015 | 02h06

Tem tudo a ver com o Campeonato Paulista, cujo pontapé inicial está marcado para este sábado. O coração aflito remete ao torneio centenário, que fez a fama e fortuna de São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos, só para ficar em exemplos de clubes que ainda hoje reúnem o maior número de torcedores no Estado e continuam com trajetória firme.

Minha geração, e a de muitos leitores do jornal, aguardava o torneio estadual - a Divisão Especial - com ansiedade, pois era o mais importante no calendário nacional. Havia a Taça Brasil, o Rio-S. Paulo (depois, Robertão) e a Libertadores da América. Essa, então, passava batida, não se dava muito bola pra ela. Porque era difícil obter vaga, porque dava confusão com os vizinhos e porque só o Santos tinha talento, ginga, pulmão e astros para encará-la.

O negócio, portanto, era seguir as proezas dos grandes contra XV de Piracicaba, Juventus, Botafogo, Guarani, Ponte, Ferroviária e tantos outras equipes do Interior que davam canseira. Era tiro e queda: a cada temporada, sempre vinham com novidades, com jovens habilidosos, promessas de craques. Eram o celeiro (esse o termo mais usado) no qual os gigantes iam se abastecer. O sonho do menino que despontava num América, São Bento, Comercial, XV de Jaú era "jogar na Capital". Europa? Um mundo distante...

Ok, isso foi em outra era, antes da explosão das tevês, das mídias sociais, da internacionalização do futebol. O tempo passou na janela, Carolina e os cartolas não viram e eis que o Campeonato Paulista - "Paulistão" para os mais entusiasmados, "Paulistinha" para os céticos - despencou. Esborrachou-se em prestígio, qualidade, arrecadação, interesse, ibope. Em emoção.

O Estadual virou estorvo para o quarteto principal, fonte de preocupação, desgaste, atritos. Até crise. A variação está no fato de às vezes ser utilizado como laboratório, pré-temporada oficial para metas mais ousadas. O São Paulo, agora, está preocupado com a Libertadores e não com um título que não belisca há uma década. O Corinthians tem como objetivo classificar-se para a competição sul-americana e, para tanto, encara o Paulista como forma de motivar o elenco. Santos e Palmeiras se reconstroem e têm pontos de interrogação em torno de si.

(Um parêntese: o Palmeiras é o único a largar com otimismo e esperança, e provavelmente com notável retorno da torcida. Depois de ano desastroso na passagem do centenário, investiu pesado, contratou muita gente, deu guinada no astral. Entra com confiança e expectativa maiores. E, claro, com responsabilidade acima da média.)

A empolgação palestrina não garante o sucesso do Paulista, infelizmente. O grosso dos competidores - as agremiações do Interior - se sustenta no sufoco, vende almoço pra garantir o jantar, fica refém de mecenas (raros) e de empresários (abundantes). Camisas tradicionais não passam de passarela para o desfile de jogadores à mostra para o mercado. Não existe mais, salvo exceções, mobilização das cidades para empurrar o time local. Há apatia, ou interesse quando recebem a visita de um dos quatro grandes. No mais, é ver jogo estrangeiro no sofá da sala.

Por diversas razões, ano após ano os estaduais se esvaziam como as represas. A televisão elegeu os duelos nacionais como prioridade, pelo alcance da publicidade. Brigas domésticas, bairristas, baixaram para segundo plano. Daí assistimos a fenômeno estranho: não existem ferrenhas rivalidades interestaduais, ao mesmo tempo em que minguam aquelas entre vizinhos. E dizer que o Campeonato Paulista era delicioso, forte, empolgante. Por isso, a dor no peito, esse aperto no coração.

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