Dos campos de críquete a gênio das pistas

Bolt queria ser ídolo do popular esporte coletivo na Jamaica, mas tinha pouco talento e foi levado a correr

Eduardo Maluf, O Estadao de S.Paulo

21 de agosto de 2009 | 00h00

Foi na sala escura de um prédio velho, quente, sem ar condicionado e nenhum luxo que começou a ser planejada a arrancada de um garoto pobre e desengonçado rumo à fama internacional. Lá fica a sede da Associação Amadora de Atletismo e o Estádio Nacional de Kingston, capital da Jamaica. É o local de trabalho de Glen Mills, um senhor careca, baixinho, carrancudo, de barba branca e rala. Foi o técnico - reconhecido por onde anda no país caribenho - quem deu o empurrão decisivo em Usain Bolt.O recordista dos 100 m e dos 200 m já mostrava talento e velocidade, mas lhe faltava disciplina. A parceria, iniciada em 2004, alçou o atleta a número 1 do mundo na atualidade - e, para muitos, de todos os tempos. Desde a infância, nas ruas da pequena Trelawny (sua cidade natal), Bolt corria - e muito. Corria com os amigos, muitas vezes descalço, corria para ir até a escola. Fazia tudo a pé. Naquela época, jamais imaginava se tornar o mais veloz do planeta. Sua ambição era outra. Queria ser um ídolo do críquete, esporte popular na Jamaica, e ganhar salário razoável para para dar uma casa melhor aos pais, Wesley e Jennifer.Não demorou quase nada para lhe dizerem que o críquete não era sua especialidade. Tratava-se de um jogador comum, sem grandes recursos. Aos 12 anos, incentivado por professores no colégio, começou a fazer testes de velocidade. E, aos 15, viu que poderia ter êxito. "Decolei quando ganhei o título mundial júnior dos 200 metros", contou Bolt, no ano passado, depois de ter quebrado o recorde dos 100 metros pela primeira vez - 9s72, em 31 de maio de 2008, em prova nos Estados Unidos.O jamaicano sabia do potencial, mas não via o tamanho do sucesso que poderia alcançar. Precisava de um nome consagrado e respeitado para fazer dele um profissional, passá-lo de promessa a realidade. "Nos damos muito bem, ele é dedicado e talentoso", afirmou Glen Mills ao Estado, em Kingston, semanas antes de embarcar para a Olimpíada de Pequim.Até conhecer o técnico, o astro, que hoje completa 23 anos, competia apenas nos 200 metros. Foi convencido a correr também nos 100 m, uma das grandes "sacadas" de Mills. A rotina de trabalho para chegar ao topo não poderia ser diferente da dos grandes campeões: cinco vezes de treino por semana na pista e três na academia.Hoje a pobreza e a timidez ficaram para trás. O velocista é o principal garoto-propaganda da Puma, multinacional alemã de material esportivo, e recebe generosos cachês para disputar competições, além de todas as premiações por suas várias conquistas. A família, no entanto, mantém a simplicidade, assim como Bolt. Em seus momentos de folga - poucos, é verdade -, gosta de conviver com os velhos amigos na Jamaica, jogar videogame e, claro, ouvir Bob Marley. O QUE ELES DISSERAMUsain Boltastro das pistas"Decolei quando ganhei o título mundial júnior dos 200 metros (aos 15 anos)"Glen Millstécnico de Bolt"Nos damos muito bem (desde 2004), ele é dedicado e talentoso"

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