''Dou carrinho até de cabeça''

Depois de superar as dificuldades de uma infância pobre, jogador sonha com título e nega a fama de pão-duro

Fábio Hecico, O Estadao de S.Paulo

30 de junho de 2009 | 00h00

"Quero muito este título e , se precisar, dou carrinho até de cabeça." A frase não é de um zagueiro ou volante. Vem do atacante Taison (nome em homenagem ao lutador Mike Tyson, ídolo de sua mãe), garoto de 19 anos e artilheiro do Internacional na temporada, com 23 gols e da Copa do Brasil, com 7. Em jejum de quatro jogos, o jogador acredita que amanhã será seu dia. "Cara, nunca fiquei tanto tempo sem marcar gols. Esse jejum vai acabar na final", diz o atacante, avesso a entrevistas e que, com muita insistência, falou ao Estado, numa exclusiva na qual abriu o coração e se emocionou bastante ao falar sobre as dificuldades que passou na infância na Travessa 8, no bairro de Navegantes, em Pelotas, antes de virar ídolo da torcida.Taison, gostaria de falar com você, mostrar um pouco de sua lição de vida e história no futebol. Pode responder a algumas perguntas?Todos já sabem da minha história, não tenho mais nada a dizer (mostrava irritação com a reportagem e tentava despistar com uma ligação de celular).Sei que não é fácil falar sobre dificuldades. Mas você virou ídolo no Internacional...É verdade. Tenho uma história difícil, mas jamais esqueço de tudo que passei na vida e hoje posso dizer que sou um vencedor. Lembro de quando era pequeno, adorava ficar nas esquinas com meus amigos até meia-noite, só que minha mãe (dona Rosângela) não deixava, mandava eu entrar.Ela estava certa, não acha?Com certeza. O bairro era muito violento e muitos daqueles meus amigos hoje estão nas drogas, na criminalidade. Eu poderia ser um deles.Podemos dizer que a bola salvou sua vida?Olha, eu quase desisti de me tornar um jogador. Fiz um teste aqui no Internacional e fui reprovado de cara. Saí daqui dizendo que teria de arrumar alguma coisa para trabalhar.Mas já havia feito algo?Eu ficava na porta de um supermercado tomando conta dos carros, mas um cara da padaria não gostava de ver a molecada lá e colocava a gente para correr. Não queria que a gente ganhasse umas moedas. Porém, não me pegava nunca (risos). E acho que foi dali que veio minha velocidade, já que nunca corri da polícia, não.Por que fazia aquele trabalho?Cara, somos 11 irmãos, meu pai separou cedo da minha mãe (ele bebia demais e ficava violento) e tinha de ajudar de alguma forma. Precisávamos ter dinheiro para comer. Lembro até hoje de ver minha mãe ir à igreja buscar um sopão para a gente. Faltava muita coisa, mas hoje temos até picanha (volta a gargalhar). Mas vamos falar de futebol.Claro. Se foi reprovado no Internacional, como voltou?Fui jogar no Progresso e fomos convidados para enfrentá-los. Comi a bola no dia e já fiquei com contrato assinado.E agora está prestes a conquistar um título...Nem fala. Quero muito este título e , se precisar, dou carrinho até de cabeça. Ser campeão na quarta-feira (amanhã) é meu maior sonho. Marcando gols, então... Vou comemorar lá com minha família. Vai ter muita gente da família Freda nas arquibancadas. Não todos, porque pagar ônibus de Pelotas para cá é muito caro.Foi sua família que te motivou a virar um jogador?Desde pequeno eu adorava jogar. Ia para escola e matava aula só para ficar no pátio jogando. Sem contar na rua. Era futebol todo dia. Tinha uma mulher lá, a dona Eli, que hoje está velhinha, que não gostava de ver a gente jogando e sempre rasgava a nossa bola. De noite todos tacavam pedras no telhado dela, mas sempre disse que eu não participava.Mas não recebeu nenhum incentivo de casa?Minha mãe sempre me apoiou e a minha maior felicidade foi quando pude dar um apartamento para ela. Hoje estamos bem. Falta só o título, outros jogos bons, a disputa da Libertadores para logo eu chegar à Europa. Pronto, agora vou embora se não perco minha carona. E não fica acreditando nessa história de que sou pão duro (pediu, apontando para os amigos que juram que ele não tem carro e nem investe o que ganha com medo de ficar sem dinheiro).

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