Dragão da Amazônia conquista o mundo

Paraense Lyoto Machida, campeão dos meio-pesados do UFC, encanta com estilo simples e demolidor, à base de ''treino, meditação e açaí''

Carlos Mendes, O Estadao de S.Paulo

16 de julho de 2009 | 00h00

O caratê é uma arte milenar que explora muito o tempo de luta, a distância do adversário, a plástica do movimento e a técnica bem executada. Um brasileiro nascido em Salvador e radicado em Belém, descendente de japoneses, Lyoto Carvalho Machida, 30 anos, juntou isso tudo com socos demolidores, chutes violentos e luta perfeita no chão. Não deu outra: em maio passado, desafiou e derrotou, na casa do próprio adversário, o americano Rashad Evans, então campeão mundial dos meio-pesados do Ultimate Fighting Championship (UFC) - o maior evento de mistura de artes marciais do mundo, conhecido por MMA (Mixed Martial Arts), o antigo vale-tudo. Evans estava invicto havia 18 lutas, 90% vencidas por nocaute. O americano provou do próprio veneno contra Machida: aos 3min49 do 2º assalto de uma luta prevista para cinco rounds, Evans desabou, castigado duramente por socos do brasileiro. O dono do UFC, Dana White, ao contemplar Evans quase desmaiado, foi categórico: "Eu acredito que está começando a era Machida. O cinturão será dele por muito tempo." Além de conquistar o cinturão e manter sua própria invencibilidade de 15 lutas, Machida faturou US$ 200 mil e ainda levou outros US$ 60 mil pelo melhor nocaute. Recebido como herói por uma multidão no aeroporto de Belém, Machida desfilou em carro do Corpo de Bombeiros. A vitória foi suficiente para conquistar de vez o público, a crítica e a imprensa norte-americana e europeia. Comparado ao personagem do filme Karatê Kid, o lutador ganhou logo um apelido: "Dragão". Um dragão que mora na Amazônia, diz "amar o povo paraense" e que toma 300 ml de açaí sem açúcar diariamente antes de cada treino pesado com duros sparrings. A fórmula que até agora tem dado certo nos combates inclui ainda "meditação, humildade e apoio familiar", disse Machida ao Estado. "Todos querem me derrotar e isso aumenta a responsabilidade." Em 24 de outubro, ele fará a primeira defesa do título, contra o compatriota Maurício Shogun, nos Estados Unidos. O rival sabe lutar bem em pé ou no chão e foi campeão do Pride, evento japonês comprado há dois anos pelos americanos do UFC. "Respeito o Shogun, mas confio em meu trabalho."A contratação do preparador físico Eduardo Lisboa, que mora em Belém, segundo Machida, foi importante para ele melhorar seu rendimento. Nos treinos, testa seus limites, prevendo situações adversas durante o duelo. A dica é ser atingido para sentir dor. Tudo se resume em uma frase. "Quem sua muito no treino, sangra pouco na batalha." Bater sem se deixar atingir pelo adversário é a estratégia de Machida. No Japão antigo, o samurai que fosse atingido poderia perder um braço, uma perna, até mesmo a vida. "Quem quiser imitar meu estilo terá de ter preparo físico e estratégia." Quanto ao futuro do MMA, Machida prevê. "Vai ultrapassar o boxe em popularidade. No Brasil, a mídia ainda não percebeu a importância do MMA como mercado, ao contrário do Japão, Europa e EUA. Aqui, por falta de informação, a mídia ainda trata o MMA com certa discriminação, associando-o a um esporte violento. Isso não tem nada a ver."

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