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Duas entrevistas

Nos últimos dias, a edição de Esportes deste jornal prestou um enorme serviço ao futebol brasileiro. Publicou duas entrevistas que, embora falem sobre o mesmo futebol, colocam-se em posição de total antagonismo. Uma das entrevistas é com Alex, grande craque ainda em atividade. Outra é com Alexandre Gallo, ex-atleta e atualmente treinador das categorias de base do Brasil. A entrevista de Alex é solar; a de Gallo, soturna. Um fala em criar, o outro fala em marcar.

UGO GIORGETTI, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2013 | 02h08

Alex acha que houve na recente seleção que ganhou a Copa das Confederações a confluência de várias condições: "A habilidade e inteligência de Oscar... os volantes que marcam, mas sabem jogar... e Neymar, um jogador acima da média". Gallo usa apenas a palavra "comprometimento". "Os jogadores eram quase os mesmos de antes, mas o comprometimento mudou". E comprometimento significa que no time de Gallo "não tem mais brinco, não tem fone de ouvido, não tem cabelo, marra, nada. Só os jogadores comprometidos serão convocados".

O fundamental entretanto, é como os dois veem o jogo dentro do campo. Alex acha que o futebol brasileiro deve ser fiel a si mesmo e jogar sua bola como sempre jogou: "É o futebol que vi na minha infância e juventude. Times que valorizam, protegem e tratam bem a bola, com jogadores de boa qualidade. Temos de manter a nossa essência e, claro, unir situações novas".

Gallo, por sua vez, acha que devemos mudar: "...outra coisa que eu tenho falado muito nas categorias de base: esse papo de que jogador brasileiro sub-13(!!) tem de deixar jogar...esse foi o maior erro dos últimos 30 anos no Brasil. Nós estamos marcando passo e os caras estão passando correndo".

Não vou me alongar mais nas diferenças. Elas se repetem. Não posso, entretanto, deixar de citar uma última declaração de Alex: "Eu brinco com os amigos dizendo que eu não tinha força nem velocidade quando era mais jovem e agora continuo do mesmo jeito. Não precisei reinventar meu jogo. Fui sempre o mesmo".

Isso está sendo dito por um jogador de 35 anos, que está fazendo um Campeonato Brasileiro brilhante, marcando gols, orientando o time, deixando-o na terceira colocação, entre os grandes do Brasil. Trata-se portanto, de um jogador atual, que sofre as marcações intensas e muitas vezes violentas de jogadores atuais, e não um jogador retirado, um fantasma dos anos 50. Um jogador que prova que é possível jogar com classe e categoria. Só é preciso ter realmente classe e categoria.

Minha primeira tentação era apenas enumerar as declarações e deixar que elas falassem por si, sem tomar partido. Mas não resisto. Pra começar as declarações do Gallo são de uma arrogância, um autoritarismo, uma arbitrariedade, sem igual no futebol brasileiro. Nunca tinha visto exposto com todas as letras um procedimento tão tirânico e sem sentido. O futebol é por definição um exercício de liberdade. Principalmente para crianças de 12 anos. O atraso, o pensamento retardatário, é tratar crianças desse sub-13 (!!) como profissionais de 28 anos. É aí que reside o absurdo, e não o contrário. Criança não tem que ser robotizada por treinadores policiais que controlam tudo em suas vidas.

Por que não pode usar brinco? Quem se importa? Os grandes jogadores sabem exatamente o que fazer. Como diz Alex em outro trecho: "Eu sei se joguei bem ou joguei mal. Tenho autocrítica muito rigorosa".

Nesta semana morreu Djalma Santos. Foi um dos maiores ídolos da história de Portuguesa, Palmeiras e seleção brasileira. No entanto, o Palmeiras perdeu uma partida decisiva de final de Libertadores porque Djalma fez uma embaixada dentro da área, perdeu a bola e saiu um gol do Peñarol. Não passou pela cabeça de ninguém acusá-lo de falta de "comprometimento".

A torcida sabia o que devia a ele. Mas, se interpretei bem a entrevista, no time do Gallo Djalma Santos não jogava.

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