Duelo de estilos e princípios

BARCELONA - É mais que um jogo, muito mais que uma simples disputa pela primeira posição. Viver os dias que antecedem Barcelona x Real Madrid perto do Camp Nou é uma oportunidade rara para entender o significado desse confronto de gigantes do futebol. Superior a qualquer explicação acadêmica, a rivalidade entre jogadores, cidades, estilos de vida e de jogo, além da politização do clássico, fazem do Campeonato Espanhol uma disputa paralela entre as duas instituições.

Paulo Calçade, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

Se no Brasileiro é quase impossível prever quem vai chegar ao final com chances de conquistar o título, por aqui a tarefa é mais simples. Nas últimas dez temporadas, Madrid e Barça levaram quatro taças cada um contra duas do Valência, que já deve se considerar satisfeito por participar de uma festa para a qual não foi convidado.

O que separa Real Madrid e Barcelona dos demais é o tamanho do orçamento, além da história e da paixão. É impossível competir com eles. O Valência bem que tentou, mas foi obrigado a vender alguns de seus principais jogadores para cobrir um rombo estratosférico em suas contas.

O campeonato por aqui é um milagre. Não é fácil sustentar uma disputa fincada em apenas dois pilares. Seria natural que com o tempo os dois grandes rivais fossem definhando pela simples ausência de concorrência. Mas não é o que veremos hoje no Camp Nou. A dupla é capaz de se entreter com seus próprios brinquedos até um novo encontro, daqui a cinco meses. Podem voltar a medir forças também na Uefa Champions League ou na Copa do Rei, desde que façam a final do torneio local.

A Espanha para, os jornais, as rádios e as televisões dedicam muito espaço ao duelo de Messi x Cristiano Ronaldo e de Guardiola x Mourinho. Barcelona x Real Madrid, entretanto, representa muito mais do ponto de vista técnico do que esses embates. São 13 os campeões mundiais pela Espanha que poderão pisar o impecável gramado do Camp Nou.

Em campo, pelo time do Barcelona, apoiado por muita gente que desejaria ver a Catalunha livre da Espanha, revigora-se o estilo da seleção que triunfou na Copa do Mundo, em julho. Guardiola poderá escalar até oito jogadores da campanha na África do Sul, gente como Xavi e Iniesta, donos do meio de campo e responsáveis pelo espírito da equipe comandada por Vicente Del Bosque. Para o torcedor blaugrana, depois da Champions só faltava mesmo um Mundial no currículo.

O pilar deste Barcelona é a posse de bola, que varia entre 60 e 70%, é o toque paciente, mesmo sem uma grande referência na área, mas substituída por tabelas no espaço reduzido e por infiltrações em altíssima velocidade. Com Guardiola no comando, o clube soma oito títulos. Já no Madrid, desde agosto sob a direção de José Mourinho, a transição de bola da defesa para o ataque tornou-se mais rápida e letal. A vitória no Camp Nou passa pelo contra-ataque.

Em pouco tempo o novo treinador conseguiu dar consistência ao grupo, sobretudo corrigindo o grande defeito do meio-campo: a falta de imaginação. Com os alemães Khedira e Ozil, além do argentino Di Maria, a mudança foi radical. Talentosos e funcionais, ofereceram a Cristiano Ronaldo a dose de criatividade que uma potência econômica como o Madrid tinha a obrigação de ter. E assim o astro pop português se transformou no artilheiro da liga com 15 gols em 12 jogos.

Trata-se, naturalmente, de uma batalha de estilos. Mourinho e seu protagonismo se encaixaram perfeitamente no midiático Madrid. No lado azul e grená, Guardiola não quer papo, prefere jogo e distância do falatório madridista. Se esse é o objetivo, Lionel Messi é a materialização dos anseios do chefe. Entra e sai calado, mas joga uma barbaridade.

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