Duelo de gigantes

Em casa, China ameaça hegemonia dos EUA no quadro de medalhas

Wilson Baldini Jr., O Estadao de S.Paulo

25 de abril de 2008 | 00h00

A China causa prejuízo de US$ 25 bilhões anuais aos Estados Unidos com a pirataria de vários tipos de produtos. Mas nada vai deixar o povo norte-americano mais decepcionado do que a perda do primeiro lugar no quadro de medalhas para os chineses na Olimpíada de Pequim, algo bastante possível - o país asiático não pára de crescer no esporte.Depois de travar grande disputa com os soviéticos durante a Guerra Fria - de 1952 a 1988 -, o time do ?Tio Sam? domina os Jogos desde 1996. Mas a nação mais populosa do mundo, que começou a participar da maior competição esportiva apenas em Los Angeles/1984, vem subindo de produção assustadoramente, a ponto de ter ficado somente a três medalhas de ouro dos Estados Unidos no quadro geral de medalhas em Atenas/2004 (32 contra 35).Das 25 edições olímpicas, os Estados Unidos ganharam mais medalhas em 14 oportunidades. A última derrota foi em Barcelona/1992, quando foram superados pela CEI (Comunidade dos Estados Independentes da extinta União Soviética).A China vem acumulando forças há pelo menos 12 anos, quando rompeu relações com a União Soviética, antiga aliada, que cortou o fornecimento financeiro. De quarto lugar em Atlanta/1996, passou para terceiro em Sydney/2000 e ficou em segundo em Atenas/2004. A briga pelo maior número de medalhas já começou fora das pistas, quadras e piscinas. Nas salas de bate-papo de vários sites chineses - até mesmo na internet a China já ultrapassou os EUA, com 250 milhões de usuários -, um dos assuntos mais discutidos é o futuro duelo com os Estados Unidos em Pequim.Os norte-americanos dão o troco: o canal NBC fez uma previsão mais do que otimista quanto ao desempenho norte-americano de 8 a 24 de agosto: 180 medalhas, com 42 de ouro. Tal desempenho seria o melhor em número de medalhas, superando Los Angeles/1984 (174), mas ficaria atrás no número de primeiros lugares (83).Segundo Cui Dalin, subchefe da Administração Geral de Esportes da China e vice-presidente do Comitê Olímpico Chinês, a delegação do país anfitrião terá 580 atletas, a maior da história. Deverá ficar próxima dos 600 integrantes dos times norte-americano e russo.Do 1,31 bilhão de habitantes fica fácil descobrir talentos, ainda mais se o trabalho é bem feito. Foi o que o governo chinês iniciou há duas décadas e meia. Com isso, surgiram atletas que ganharam notoriedade internacional como o gigante pivô Yao Ming, de 2,29 metros, que logo foi abocanhado pelo Houston Rockets no milionário basquete da NBA. Outro com grande sucesso é Liu Xiang, atual recordista mundial dos 110 metros com barreiras desde 2004 e apontado como medalha certa em Pequim.FORÇAS DIFERENTESA China concentra suas forças em alguns esportes menos nobres - ao contrário dos norte-americanos - para tentar equilibrar a disputa. No tênis de mesa (masculino, feminino, duplas masculinas, duplas femininas e duplas mistas), os orientais têm praticamente garantida a conquista de cinco ouros e cinco pratas, além de dois ou três bronzes.Mais uma modalidade que deve empurrar, e muito, os chineses para cima dos norte-americanos no quadro de medalhas é a dos saltos ornamentais. Na previsão de especialistas, a China pode subir ao pódio 12 vezes - oito medalhas de ouro, três de prata e uma de bronze.Mais nove medalhas são esperadas para a China no badminton - esporte semelhante ao tênis, praticado com raquete e peteca, que chega a alcançar 350 km/h. Três poderão ser de ouro.Um detalhe. Em nenhum desses esportes os Estados Unidos aparecem com chance de conquista de medalha, o que proporciona uma boa vantagem aos chineses, que ainda são muito fortes na ginástica. Na ginástica, contudo, a disputa com os norte-americanos será grande. A medalha de ouro da ginasta Fei Cheng no salto é contada para os chineses antes mesmo do início dos Jogos. Cheng, de 19 anos, foi campeã mundial em 2006 e 2007. Mas ela terá o duro confronto com as norte-americanas Alicia Sacramone e Shawn Johnson. A brasileira Jade Barbosa está entre as favoritas para compor o pódio.Na ginástica por equipe feminina, a disputa será eletrizante entre chinesas e americanas. A Romênia não se mostra com força para buscar o tricampeonato. Catalina Ponor é a única remanescente do time vencedor.A equipe masculina de ginástica vai tentar recuperar o prestígio perdido há quatro anos, depois de três olimpíadas seguidas no pódio (1992 e 1996 foi prata, e em 2000, ouro). O astro Wei Yang promete liderar mais uma vez o grupo que venceu o Mundial do ano passado. Os norte-americanos vão brigar com os alemães pela medalha de bronze, pois a prata deverá ficar com os japoneses.No cavalo com alças, Xiao Qin deve ficar com o ouro, deixando Alexander Artemov, dos EUA, brigando pelo bronze. Mesmo panorama se apresenta nas argolas. Yibing Chen deve ser o vencedor, enquanto o norte-americano Kai Wen Tan, nascido em Fremont, Califórnia, vai tentar ficar entre os três primeiros.Os chineses ainda levam vantagem nas paralelas, pois Xu Huang e Wei Yang vão estar na luta por medalhas. Nenhum americano surge com possibilidade de se colocar em condições de subir ao pódio. O Mundial de Stuttgart no ano passado foi muito equilibrado. O time chinês ficou com oito medalhas (5 ouros, 2 pratas e um bronze), enquanto a equipe americana somou um ouro a menos.No tiro, os chineses deverão abrir boa vantagem, pois são favoritos a 16 medalhas, enquanto os norte-americanos são apontados somente em seis. As conquistas dos Estados Unidos serão as mais vistosas dos Jogos. Os americanos são fortes em vários esportes coletivos. Vôlei, vôlei de praia e futebol feminino devem colaborar para o acervo de medalhas do país. O basquete masculino terá o dever de recuperar a aura perdida em Atenas. A China tem chances bem menores de sucesso nessas modalidades.PHELPSNa natação, só o super-recordista Michael Phelps planeja conquistar sete medalhas de ouro, algo que não parece impossível para quem já subiu seis vezes no lugar mais alto do pódio há quatro anos, em Atenas. No último Mundial, foram 21 ouros, 14 pratas e 5 bronzes para os norte-americanos, que ficaram com o primeiro lugar no quadro geral. Os chineses progrediram muito e obtiveram um impressionante quarto lugar (9 ouros, 5 pratas e 2 bronzes).Mas é no atletismo, esporte que vai fechar a disputa dos Jogos, que os Estados Unidos apostam tudo para manter a hegemonia olímpica. No último Mundial, os EUA ganharam 26 medalhas, contra apenas três dos chineses. Foram 14 ouros para os americanos e somente um para os asiáticos. Medalha de ouro obtida por Liu Xiang (110 m com barreiras).Steve Roush, chefe da delegação dos Estados Unidos durante o Pan do Rio em 2007, apresenta um número que impressiona os atletas de seu país. Os chineses conquistaram 43 medalhas de ouro em competições internacionais de modalidades olímpicas no ano passado, enquanto os americanos ficaram com 36. Em Pequim, os atletas estarão cara-a-cara. Quem tiver os nervos no lugar, ficará com o ouro. Vale a pena conferir.

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