Dunga ataca

Técnico da seleção de bronze diz que não teme perda do cargo

Sílvio Barsetti, O Estadao de S.Paulo

26 de agosto de 2008 | 00h00

Defensivo em Pequim, Dunga chegou da China no ataque. E, com seu estilo ?trombador?, cruzou o saguão do Aeroporto Internacional de São Paulo sem dar vez aos adversários. Vanderlei Luxemburgo, técnico do Palmeiras e cotado para substituí-lo na seleção, caso perca o emprego, foi o alvo preferido. Com um leve sorriso, o treinador disse não temer a concorrência pelo cargo que ocupa desde 2006 e apresentou sua mais nova credencial para tentar manter-se na equipe e afastar pretendentes a sucessor: a medalha de bronze conquistada na Olimpíada."Estou tranqüilo com relação a isso (ameaça de ser demitido), pois os profissionais que estão cotados são excelentes", comentou, para emendar com um toque de ironia. "O Luxemburgo mesmo já disputou uma Olimpíada", recordou. "Ele teve um ano de preparação e não ganhou medalha."Dunga referia-se aos Jogos de Sydney, em 2000, em outra campanha decepcionante da seleção, eliminada nas quartas-de-final por Camarões. Na época, o Brasil jogou com dois a mais em relação aos africanos. No retorno, foi demitido e ainda enfrentou uma série de problemas pessoais. Dessa forma, Dunga deu resposta pública a eventuais manobras políticas do treinador do Palmeiras para voltar a comandar o time do Brasil, se o quadro se tornar insustentável.A situação de Dunga já era delicada antes dos Jogos de Pequim. Ele foi muito hostilizado pela torcida no empate por 0 a0 com a Argentina, pelas eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, em junho, no Mineirão, dias depois de o Brasil ter sido derrotado pelo Paraguai e perdido pela primeira vez na história para a Venezuela (em amistoso disputado nos EUA). Com o Brasil em quinto lugar nas Eliminatórias, Dunga foi para a Olimpíada com a obrigação de trazer o ouro. Fracassou justamente contra a Argentina, na semifinal, por ter armado um time mais preocupado em se defender. Com atuação apagada, a seleção perdeu por 3 a 0 e fez a festa dos rivais, que chegaram à final e conquistaram o bicampeonato.ESPERANÇAOntem, porém, Dunga tentou demonstrar otimismo e adotou discurso a favor da medalha de bronze - algo que é aceitável no País para quase todas as modalidades esportivas numa Olimpíada, menos para o futebol masculino."O Brasil não ganhava uma medalha desde os Jogos de Atlanta, em 1996", ponderou. "Temos de ser conscientes, quem não trouxe uma medalha é que deve ficar chateado. Não foi uma decepção não ter trazido o ouro." No desembarque, acompanhado dos são-paulinos Alex Silva e Hernanes, o treinador atendeu a todos com paciência e ainda teve tempo de dar um autógrafo para um torcedor.Dunga não deixou claro se conversou com o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, depois da derrota para os argentinos. Repetiu o que diz há vários meses, toda vez que se depara com situações adversas. "Ele (o dirigente) disse para eu continuar o meu trabalho sem me preocupar com nada", afirmou. "Por isso já penso nas partidas das Eliminatórias."No próximo dia 7, contra o Chile, em Santiago, o técnico vai passar por uma prova de fogo. Se vencer e, três dias depois, a seleção confirmar o favoritismo contra a Bolívia, no Rio, o capitão da campanha do tetracampeão mundial pode ainda sonhar em chegar à Copa de 2010 com o mesmo emprego.Se o Brasil não conquistar os seis pontos nos dois jogos, Ricardo Teixeira vai, provavelmente, vir a público para apresentar novidades aos torcedores brasileiros. É o que se especula no Rio.A tarefa de Dunga nos próximos dias não será fácil. Não poderá contar com Kaká - não convocado por causa de uma contusão - e sabe que Ronaldinho Gaúcho não vai recuperar a forma física em duas semanas.Antes de seguir para Santiago, a seleção deve treinar por quatro dias em Teresópolis, na região serrana do Rio. Depois de enfrentar o Chile, volta em vôo fretado a fim de aproveitar o curto espaço de tempo para um ou dois treinos antes do jogo com a Bolívia, no estádio do Botafogo, o Engenhão.

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