Dunga e seu xerife: unidos em torno do chimarrão

Mais do que um simples e zeloso segurança de rua, Natanael Stechmann, de 44 anos, é um misto de guardião, amigo e confidente de Dunga. Passa a maior parte do tempo numa guarita de madeira em frente à casa do técnico da seleção brasileira, no bairro Jardim Verde, zona sul de Porto Alegre. É desconfiado e dificilmente pode ser visto sem a cuia de chimarrão. Na quinta-feira, logo que avistou a tele de 600mm (lente de longo alcance) do fotógrafo do Estado, Natanael deixou o posto e esbravejou: "Diz lá pra ele que sou mais rápido e estouro aquela lente à distância." Depois, sorriu e esfregou as mãos.

Sílvio Barsetti, PORTO ALEGRE, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

O cartão de visitas é meio assustador. Num primeiro momento, Natanael faz questão de se mostrar um sujeito rude, de poucas palavras. Enumera uma lista de histórias incríveis em que quase sempre se destaca e se nega a dar informações sobre Dunga. "Uma equipe de TV veio me entrevistar dois anos atrás, eu levantei a camisa, mostrei meu 38 e a entrevista acabou", conta o segurança. "Queriam saber uma coisa e outra do Dunga e eu disse que só sei falar de chimarrão, de facão e de como dar tiros."

É a Natanael que Dunga recorre quando não quer conversar sobre futebol. Gosta de ouvi-lo, bebem chimarrão juntos sentados na calçada, falam sobre a vida dos filhos, desabafam. O técnico já declarou que se inspira em Natanael, pela infância difícil que o amigo teve em Santo Augusto, distante 346 quilômetros de Porto Alegre. O matuto trabalhou no cultivo de milho, trigo e soja antes de aprender a identificar "os guris que escolheram o caminho errado". Foi para a capital há 14 anos e se firmou como segurança do condomínio Jardim Verde.

Ele mora na associação de moradores do bairro, num espaço amplo ao lado da casa de Dunga. Dois campos de futebol, um deles com refletores, e uma quadra de futsal recebem os amigos do técnico nos fins de semana e nas noites de segunda e quinta. Dunga é o responsável pela maior parte dos custos da área de lazer e, de vez em quando, joga futebol com os vizinhos. No local, existe a cancha de bocha Capitão Dunga, desativada, à espera de obras.

Natanael acolhe os convidados, organiza churrascos, mas não participa das brincadeiras. Detesta atividades esportivas. A explicação para não jogar futebol na associação é simples. "É muito xingamento. E se me xingarem não vai dar certo, vou querer dar uns tiros. Sou um homem correto."

A pose de benfeitor, reverenciada por outros moradores do Jardim Verde, chega a ser caricata quando Natanael critica o trabalho de recuperação social de jovens infratores. "Esses guris assaltam e aí vem o Conselho Tutelar, com psicólogo. Não tem essa de Conselho Tutelar. Errou, tem de dar quatro laçadas no piá. Psicólogo de guri errado sou eu, que não falo duas vezes."

Atento à circulação de carros e pedestres que cruzam a rua de Dunga, Natanael conta com a ajuda de dois filhos para fazer a segurança do local. Um deles, Alexandre Stechmann, também é avesso a entrevistas. Tudo porque se desiludiu com uma reportagem feita há alguns anos, na qual enalteceu o treinador da seleção. "Saiu no jornal que eu me derreti de elogios ao Dunga. Ele é gente muito boa, mas isso de derreter não é comigo."

Sossego garantido. Num raro momento de descontração durante a semana, Natanael transferiu para Dunga a responsabilidade pelos últimos meses de sossego no Jardim Verde. "Ele nos dá segurança aqui. Todos já sabem que encrenca com o Dunga ganha repercussão e ninguém se mete com o homem." Indagado sobre uma eventual festa no condomínio no período da Copa, o escudeiro de Dunga não se conteve. "Que bobagem. Futebol só estressa e aprisiona. Olha como ele é perseguido. Vocês vêm até com armamento pesado (a tele de 600mm) atrás dele. Já eu sou livre."

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