Dunga, o zangado

Já escrevi aqui que torcedores e cronistas esportivos parecem concordar sobre uma coisa: se a seleção brasileira atua bem, é porque temos os melhores jogadores do mundo; e, se joga mal, a culpa é do técnico, que poda a criatividade dos nossos craques insuperáveis. Nos últimos anos, toda vez que a seleção brasileira fez exibições pífias, a chibata cantou no lombo de Dunga. Já nas grandes vitórias, como as recentes, sobre Argentina e Chile - sem falar nos passeios sobre a Itália na Copa das Confederações e sobre a mesma Argentina na final da Copa América -, os confetes caem muito mais sobre as cabeças dos jogadores do que sobre o penteado escovinha do treinador. Mas as coisas estão mudando.

, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Já critiquei Dunga algumas vezes, como quando ele insistiu em escalar jogadores menos tarimbados e de eficácia questionável no comando do ataque. E critico-o agora, por insistir com Robinho e Gilberto Silva, quando temos Nilmar e Diego em grande fase. Mas também elogiei muitas vezes o trabalho que ele desenvolveu, ao transformar um grupo de grandes jogadores num time de verdade, unido, com aplicação e padrão de jogo. Foi assim quando disse que seria injusto não creditar a ele a ousadia de colocar uma seleção grandiosa para às vezes jogar atrás, partindo em velocidade e liquidando jogos críticos com a qualidade dos homens de frente.

Para o bem ou para o mal - e agora todos parecem concordar que foi para o bem -, Dunga fez o que parecia um desrespeito para os que estão acostumados com um Brasil que sempre imprensa seus adversários e toca a bola de um lado para o outro, até gastar a redonda ou a paciência dos torcedores. Ele fez os jogadores da seleção perderem o apego à bola e eventualmente entregá-la aos rivais, para, em seguida, recuperá-la e partir em velozes e furiosos contra-ataques.

Dito isso, sinto-me tranquilo para reconhecer mais uma vez os méritos do nosso treinador. Um treinador que se parece bem mais com o anão Zangado do que com seu pacato colega Dunga. Um treinador que aprendeu com Zagallo a não poupar munição na hora de rebater as críticas que o seu grupo recebe, postando-se corajosamente entre as pedradas que vêm da imprensa e dos cartolas e os seus comandados. Ao fazer isso, cativa o grupo, estabelece sua liderança e inspira os comandados a lutar por sua causa. Acho que já chegou a hora do gaúcho relevar o que passou, relaxar um pouquinho e, mesmo sem ser o Dengoso, ser um pouco mais Dunga e um pouco menos Zangado.

Dunga inventou o contra-ataque na seleção brasileira. E temperou-o com pitadas de chuveirinhos mortais e combate defensivo. Hoje somos um time perigosíssimo, temível e com enorme capacidade de reação. A fé do elenco, formado quase que integralmente por atletas de Cristo, parece, curiosamente, ajudar nesse quesito, ainda que isso seja assunto para outra coluna. Fato: o Brasil é hoje o grande favorito para ganhar a Copa do Mundo - e seria desonestidade intelectual não creditar a Dunga parcela significativa desse mérito.

Atrevo-me a dizer que, se perdermos a Copa, não será para um grande adversário que ouse nos atacar. Se perdermos, será para um Paraguai da vida, uma Irlanda, uma seleção africana, que se fechará em copas e tentará o gol numa jogada isolada. Quem nos atacar, correrá o risco de ser humilhado. Essas coisas e mais o fato de a Copa ser disputada longe da Europa, a Argentina estar em baixa e a nossa carrasca França quase fora, me animam a dizer que o hexa pode estar a caminho. Sendo assim, relaxe um pouco, Zangado, e curta o seu merecido sucesso.

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