Duro na queda

Miro aprendeu a resistir como pode. Pentacampeão mundial no braço de ferro, sua batalha jamais terá fim

Evelson de Freitas, O Estadao de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 00h00

Para uns, é passatempo e brincadeira da infância. Para outros, jogo e motivo de apostas. A vontade de duas pessoas de duelar usando o braço como sinônimo de força, conhecida como braço de ferro, é também uma atividade esportiva pouco divulgada no País. A prática é milenar e sua origem se perde no tempo. Pinturas e escrituras encontradas em civilizações antigas, como a egípcia, a grega e a romana, mostram que a atividade remete a, pelo menos, 2.000 anos antes de Cristo. E, como expressão, também significa ir até o fim, custe o que custar. Com tantos significados, na queda de braço o controle da força, a concentração e o conhecimento são fundamentais para definir o vencedor, numa disputa em que não há empate. Valdomiro de Souza, de 36 anos, é prova disso. Miro, como é conhecido pelos amigos na região de Campinas, interior de São Paulo, é pentacampeão mundial de braço de ferro. No fundo, ele já até perdeu a conta de suas conquistas. Nem sabe quantos campeonatos paulistas e brasileiros já ganhou. "O esporte foi tudo pra mim. Por causa dele eu consegui emprego e fui para a briga", conta. "Eu sempre estava treinando. Disputar os títulos sempre foi sagrado pra mim. Para lutar não preciso equipamentos sofisticados, só da força de vontade mesmo, só dependo de mim."Miro é um vencedor. Travou sua primeira queda de braço contra a poliomielite. Adquiriu a doença aos três anos de idade. Pegou o vírus brincando em um córrego. Passou a infância metido no esgoto da favela São Marcos, local em que morava com a família pobre e sem condições, na periferia de Campinas.A paralisia atingiu as duas pernas. Teve de fazer várias operações de correção e ficou paralítico. Quando completou cinco anos o pai, que tinha conseguido emprego em um convento de padres salesianos, conseguiu uma doação e, a partir de então, se tornou cadeirante. Desde criança foi estimulado pelo avô Pedro Alcântara a jogar braço de ferro. Cortador de cana, com os braços fortes e musculosos, seu Pedro era um brincalhão. Sempre apostava com os amigos nos bares e adorava brincar com os netos.Miro era o único que conseguia segurar a puxada do braço do avô. "Meu avô dizia ?esse moleque é forte e duro na queda?", conta, orgulhoso. Aos 15 anos, Miro foi convidado para participar de um programa de basquete para portadores de deficiência da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Em pouco tempo se destacou no time. O incentivo veio do amigo, mais do que irmão, Alexandre Cândido, que já fazia parte da equipe. Alexandre também teve uma vida difícil, contraiu o mesmo vírus da poliomielite, na mesma época e na mesma favela da infância de Miro. Com as tanto em comum, sempre estiveram lado a lado. Miro queria mais. Queria participar de outros esportes. Tentou a natação, mas não se adaptou. Por meio de uma reportagem soube que teria um campeonato de braço de ferro no Ginásio Cultura Artístico, em Campinas, e foi assistir. Era a disputa do Campeonato Paulista e ele nunca tinha visto competidores com braçadeira e proteção. Nem sequer sabia que havia categorias diferentes.Um atleta de Indaiatuba, percebendo a força dos braços de Valdomiro, perguntou se ele jogava luta de braço. Com a afirmativa, convidou-o para participar da equipe, mas com a condição de não revelar a ninguém que não fazia parte da delegação. "Entrei na luta e fui arrebentando todo mundo. Comecei a ganhar, mas não tinha técnica. Fiquei em terceiro lugar."Depois do torneio, o técnico da equipe de Campinas, e também da seleção brasileira, Amílton Junior , convidou Miro para treinar. Com um ano de treinamento, aprendeu a técnica e as regras da mecânica e ficou 21 campeonatos sem perder, somando a essa conta os Jogos Abertos, a Copa do Brasil, Campeonatos Paulista e Brasileiro. Não parou mais de vencer. O avô não chegou a ver o sucesso do neto: faleceu antes desse primeiro ano terminar. Na queda de braço seguinte, em 2000, Miro tinha acabado de se casar. A mulher já estava grávida. Fez um curso de eletrônica de um ano e meio, tentou montar negócio próprio, mas não vingou. Desesperado, foi vender bala nos faróis de Campinas. Durante cinco anos, todos os dias, na Rua Francisco Alves, ele e o amigo Alexandre ficaram vendendo balas e pedindo ajuda. Conheceram muita gente no semáforo. Um deles, Marcelo Kassab, irmão do prefeito da cidade de São Paulo, prometeu e arrumou emprego para os dois. Foram trabalhar montando kits para vacinação.Nessa época, Miro morava numa área de invasão, em Hortolândia. Lá não havia água, nem ele nem a mulher prenhe tinham condições de carregar os baldes. Quando chovia a cadeira de rodas atolava no barro e não podia ir trabalhar. Acabou o contrato da confecção dos kits, perdeu o emprego e voltou para a rua. Foi morar de favor. Fazendo valer a lei do portador, distribuiu inúmeros currículos. Conseguiu outro emprego, virou operador de conversão e foi separar lixas na 3M. Decaiu em 2005. Ficou doente e, internado, perdeu a noção das coisas, não quis mais nada. Parou com os treinos, abriu mão do basquete e dos torneios. Entrou em depressão. Começou a perder. Conheceu a bebida e as drogas, sentia o peso de não conseguir mais ser campeão. Teve um colapso nervoso. Ficou dois anos afastado de tudo. Recebeu tratamento e apoio da empresa em que trabalhava. Inspirou-se na coragem e no apoio da família e dos amigos do basquete e teve uma recuperação extraordinária. O corpo forte reagiu a tempo. Conseguiu retornar aos treinos, quase três anos depois. Recuperou a esperança. Voltou a ter endereço: Rua 5, número 14, no bairro Recanto do Sol, em Hortolândia. Comprou uma pequena casa de dois cômodos, financiou o material para construir outros dois.Pai da linda Estafane, de 9 anos, Miro conta com muito orgulho que a mulher, Cida, está grávida de três meses. Depois de retornar ao esporte, conseguiu ser campeão paulista, brasileiro e vice mundial.O FUTUROMiro quer continuar vencendo. Sonha em participar de uma Paraolimpíada e ser reconhecido. Tenta dar aos outros o mesmo que recebeu. Sai sempre com o amigo Alexandre nas ruas da grande Campinas e, quando encontra algum deficiente, o convida para jogar basquete.O time, por sinal, o GadeCamp (Grupo dos Amigos Deficientes de Campinas) está disputando a Segunda Divisão do Paulista e do Brasileiro. Conta hoje com 18 atletas. É patrocinado pela prefeitura de Campinas, com apoio da Microcamp. Em 10 anos de vida, já foi bicampeão paulista, mas treinos só duas vezes por semana. Para um melhor desempenho, o ideal seriam quatro vezes, mas para isso precisaria de patrocínio. Com o segundo grau completo e um bom discernimento das coisas, Miro critica a falta de preparo das cidades para os deficientes. "Hortolândia, por exemplo, não tem ônibus adaptados aos portadores. Tem de ir arrastando mesmo e contar com a ajuda dos outros passageiros para se locomover", diz. Em plena forma, vai participar no mês que vem das seletivas para obter uma vaga para o próximo mundial, a ser disputado em setembro na Itália. Não para de jogar. Pelas contas da Confederação do esporte, Miro conquistou sete Campeonatos Paulista e nove Brasileiros.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.