Dúvida e esperança

Ronaldinho Gaúcho e Ganso têm talento abençoado. Nisso concordamos, eu, você, o Chico Barrigudo. Ah, não me diga o contrário! Ambos estão em condições de reger suas equipes, como maestros de pés refinados. Não é por acaso que Flamengo e Santos depositam neles esperança de largar bem, hoje à noite, na corrida pelo ouro da Libertadores. Em condições normais, nomes certos para a seleção brasileira. Por isso, talvez, Mano Menezes ignorou Kaká (que também não está excepcional) e tenha optado pela dupla para o jogo com a Bósnia, na Suíça, país querido do ainda dono da bola, se não apear do poder até lá.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2012 | 03h04

Mas o momento nem por sombra é dos melhores para R10 e PH, com suas siglas modernosas. Dentro ou fora de campo. Ronaldinho trombou com Vanderlei Luxemburgo (pior para o pofexô, demitido na Gávea), ficou amuado, com razão, pelo atraso do Fla no pagamento de uma grana alta que lhe é devida. E, o mais importante, o futebol espetacular, que encantou plateias de todos os gostos anos atrás, ressurge de vez em quando. Parece até um cometa Halley.

A trajetória atual de Ganso não é muito diferente daquela do colega famoso. Alguém se recorda de uma recente exibição de arrasar do 10 santista? Seu último episódio marcante ocorreu na decisão continental, no ano passado, contra o Peñarol. Antes e depois, quando não esteve em tratamento médico, o desempenho serviu para miudezas, um feijão com arroz bem temperado com bifinho por cima. Como complemento, diversas trombadas com a diretoria do clube, ou por busca de reajuste salarial ou por vislumbrar possibilidade de ganhar os tubos no Exterior e alegrar seus mentores.

Ronaldinho e Ganso podem muito mais do que têm mostrado, e nos acostumaram mal. O gaúcho deu provas de qualidade ao esparramar arte e enfeitiçar adversários, quando era o destaque do Barcelona e levou duas vezes o troféu de melhor do mundo oferecido pela Fifa. O paraense foi saudado como um craque da linhagem de Dirceu Lopes, Ademir da Guia, Didi; equivalentes, no nosso futebol, a mestres modernistas das artes como Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Villa Lobos. Ou mais.

Mas andam dispersivos. O desalento maior é com Ronaldinho Gaúcho, que nos concedeu incontáveis recitais nos gramados, frequentes até a metade da década passada. A habilidade não a perdeu jamais; basta observar como toca na bola, sem arranhar a película que a reveste. A inspiração, porém, não é a mesma, assim como o fôlego. Fica a impressão constante de que Ronaldinho concentra o ímpeto em outra direção.

Ganso é bem mais novo, caráter reservado, físico menos resistente do que o de Ronaldinho. Passa a sensação de que o incomoda essa indefinição na carreira. Talvez eu esteja com olhar enviesado, distorcido, mas não o vejo muito à vontade no Santos. Nem se trata de pedir reações explosivas, pois isso contraria seu temperamento. Queria, mesmo, era vê-lo intenso nos passes precisos, na constância, na liderança da equipe com a bola nos pés. Pode ser exigência excessiva.

Esta crônica, na verdade, revela um conflito meu e, quem sabe?, seu também. O desejo é aplaudir Ronaldinho e Ganso sempre, pois o futebol carece de estrelas e não de cabeças de bagre. O temor é vê-los frustrar nossa expectativa, por não conseguirem doar-se o quanto gostaríamos. Torço para que as dúvidas levem um impecável lençol da dupla, já na largada da Libertadores. Se isso ocorrer, com prazer registrarei aqui que os fantasmas de agora são um equívoco total.

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