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E a zebra?

O pior é que, vendo os jogos, é difícil distinguir quem é o time médio e quem é o grande

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

28 Agosto 2016 | 03h00

Esse belo animal que simbolizava o resultado surpreendente e inesperado no futebol aparentemente não existe mais. Tudo é zebra ou, se quiserem, não há mais zebra. A zebra se caracterizava quando jogava um time de larga tradição e camisa temida contra outro de muito menos prestígio e camisa de escassas conquistas. Quando ganhava o time menos significativo estabelecia-se a zebra. Era um resultado raro. Por isso o nome zebra, emprestado da mitologia do jogo do bicho. Hoje, porém, as coisas são outras. Vejo clubes de grande fama, massa de torcedores imensa, enfrentando e perdendo jogos em outros tempos classificados como para lá de zebras, e que, no entanto, são aceitos até com naturalidade. 

Equipes poderosas perdendo para equipes da Série C, favoritos ao título do brasileiro sofrendo para empatar em seu campo lotado com equipes médias. O pior não é o resultado. As zebras existiram sempre. O pior é que, vendo a maioria dos jogos, é difícil distinguir quem é o time médio e quem é o grande. Quem é da Série A e quem é da Série C? O tremendo desprezo pelas cores e uniformes tradicionais adiciona um pouco mais de confusão na coisa. Veem-se dois times rigorosamente parecidos jogando com camisas que não reconhecemos à primeira vista. 

Não temos mais grandes jogadores nem sequer bons jogadores. Todos foram embora do país. Os pouquíssimos que restaram, as prováveis revelações arrumam as malas à primeira oferta. E ficamos cada vez mais pobres e cada vez mais iguais. É impressionante a semelhança entre grandes e pequenos que hoje existe no futebol brasileiro. 

Não há outra razão para o campeonato ser tão equilibrado. Poderia ser tão equilibrado por qualidade, como se as equipes fossem semelhantes pelo poderio. Era o que acontecia em anos passados e é do que se serve o torneio atual para manter sua mística. Mas agora temos um equilíbrio contrário, não pelo poderio, mas pela mediocridade. Não há quase nenhum jogador acima da média que não tenha data marcada para ir embora. Algumas transferências são até inexplicáveis. 

Há um jogador que lembra os antigos craques. Talvez não seja um deles, mas lembra. Trata-se de Walter, gorducho e eternamente fora de forma, atacante até recentemente do Atlético-PR. Não consigo pensar em outro jogador que mais me lembre de um futebol que abandonamos deliberadamente. Basta ver um ou dois lances desse jogador para reconhecer o diferente. Os gols que faz não são como a maioria que se vem nos jogos. Não são produtos de trombadas, onde se engalfinham zagueiros dos dois times, pois a maioria dos gols hoje é feita por defensores, em bolas paradas. Os gols de Walter são feitos de toques sutis enganando goleiros, batendo de primeira, certeiros e artísticos. Quando não faz, lança. E dispensa qualquer preparo físico para exercer sua arte. Pois bem, esse jogador, o único que no ataque do Atlético-PR oferecia a possibilidade de um lance perigoso saiu do time. Para a Europa? Não, é muito veterano e muito gordo para isso. Está indo para um time de uma divisão inferior, o Goiás, que está na Série B. No meio do Brasileiro, o Atlético-PR se livra da classe que incomodava por alguma razão, para em seu lugar propor mais mediocridade ao campeonato. 

Estão assim todos os clubes. Paradoxalmente o campeonato, nivelado tão por baixo, tem sua grande atração no suspense e na indefinição das partidas que o próprio nivelamento geral proporciona. As partidas se revestem hoje não de qualidade, mas de suspense. Corre-se como nunca, luta-se muito e erra-se demais. Os resultados mudam dentro de cada jogo porque ninguém é superior a ninguém e tudo pode acontecer. O que não deixa de ter seu charme. É isso que sustenta esse campeonato. O encanto da correria desenfreada e da possibilidade de um erro fatal, que em geral acontece. Quanto à velha zebra, esqueçam. Só, talvez, no jogo do bicho.

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