E Deschamps erguia a ''maldita'' para a multidão

Aquele 12 de julho de 1998 em Paris ainda está vivo nas minhas retinas. O magnífico Stade de France, o Saint-Denis, se entupia de uma multidão vestida de azul, branco e vermelho. Num canto, canarinhos com a mítica amarelinha em algazarra. "Pentacampeão!", gritavam, ao som da batucada. Faltavam 20 minutos para o início da final da Copa. E algo de estranho estava por vir.Acomodado em um dos assentos da tribuna de imprensa do Saint-Denis estiquei o pescoço e vi, no andar de baixo, nas tribunas de honra, Michel Platini com a camisa da França sob um terno preto. Ao seu lado, o presidente Jacques Chirac e personalidades. Imponentes.Bloco de anotações, laptop ligado, minha bancada estava montada. De repente, um frenesi. Colegas correndo. Não entendi nada. Aquele momento era de concentração para ver Brasil e França, a final. Não era para atropelos de última hora.Uma moça da organização da Copa me entregou o boletim da Fifa com as escalações das seleções. E aí entendi o motivo de toda aquela agitação dos coleguinhas. No lugar de Ronaldo, no time do Brasil, aparecia o nome de Edmundo. Ronaldo, o Ronaldinho, não jogaria a final.Lembro que na fileira de cima da minha estava Suzana Werner, noiva do craque, ao lado do repórter Pedro Bial, da Globo. Ela levou um susto quando lhe dei a notícia: "Suzana, o Ronaldo não vai jogar". Ela: "O quê? Meu amorzinho?!...não! O que aconteceu?" Saí correndo atrás de informações sobre o paradeiro de Ronaldo.Descobri, via fonte da CBF, que o craque havia sofrido um mal súbito, mas jogaria a decisão. Obra de Ricardo Teixeira, presidente da CBF, que manobrou nos bastidores e conseguiu trocar Edmundo por Ronaldo minutos antes do jogo. O final da história todo mundo sabe. Ronaldo jogou, o Brasil tomou de 3. Eles ficaram com a taça. Ainda me lembro de ver Deschamps, o capitão deles, levantando a maldita para júbilo de Chirac, Platini e a multidão.Uma hora após a derrota, nos subterrâneos do Saint-Denis, a história da convulsão de Ronaldo foi contada sem detalhes pelo comando da seleção. Uma bela e sinistra história, que caiu como uma luva para explicar o fracasso do Brasil. O futebol tem dessas coisas.

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