É hora de falar sério, Brasil

Não é viável e tampouco recomendável, técnica e economicamente, realizar o projeto de Pirituba em cerca de três anos, sob pena de termos obras mal planejadas

José Roberto Bernasconi, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2010 | 00h00

A Copa de 2010 terminou. Exige-se, agora, que os responsáveis pela preparação brasileira para realizar bem a Copa de 2014 se debrucem sobre os desafios de executar as obras de infraestrutura esportiva e geral para a realização do Mundial. Isso porque ainda há indefinição em questões básicas, essenciais, como sobre o estádio que receberá a abertura.

A polêmica que se instaurou após a decisão da Fifa de retirar o Morumbi da Copa 2014 ? se a capital paulista deve construir um novo estádio em Pirituba para recepcionar o jogo de abertura do campeonato ou optaria por outra solução, desistindo do jogo inaugural ? é emblemática da época em que vivemos. Este é o momento de falar sério e pensar não somente no espetáculo, mas essencialmente nos custos e benefícios, no legado para a sociedade, nos investimentos a serem feitos, públicos em sua maioria. Ponderando todos esses quesitos e tendo em vista que a construção de um novo estádio em São Paulo, com capacidade para mais de 65 mil espectadores, e de todas as demais obras exigidas para atender às exigências da Fifa (transporte de massa, vila de hospitalidade, entre outras), envolveria alguns bilhões de reais, o mais sensato seria o Brasil definir o Maracanã, revitalizado, para ser sede da abertura e da final. Afinal, os investimentos públicos na reforma do Maracanã para o campeonato serão feitos, obrigatoriamente.

O novo estádio paulistano estaria situado numa área de 5,5 milhões de m2, declarada de utilidade pública pela Prefeitura de São Paulo, que pretende erguer ali um novo, moderno e amplo espaço para eventos, que substituiria o parque do Anhembi, já acanhado para a demanda, como principal centro de eventos da capital paulista. São Paulo é o maior polo de atração da América do Sul, possui diversificado turismo de negócios, é um centro de feiras e exposições e, assim, necessita construir e operar um novo centro de eventos de padrão global, condigno e compatível com sua condição de cidade mundial ? candidata a sede da Expo 2020 ou 2025.

Mas, para isso, deve desenvolver o masterplan do empreendimento, obter as aprovações e os licenciamentos ambientais, proceder às licitações de caráter internacional para decidir a quem atribuir a concessão do empreendimento (construção, operação e manutenção) por 20 a 30 anos, incluindo os espaços cobertos de 350 mil m2 e espaços abertos, parque hoteleiro, restaurantes, equipamentos de apoio e até uma arena multiuso, além, é claro, da adequação total da área e de prover a infraestrutura necessária para sua implantação e operação. Só que isso, para ser pensado, estudado, planejado, projetado, licenciado, construído, equipado e montado, testado e aí, então, operado, demanda um prazo de seis a oito anos. Não é viável e tampouco recomendável, técnica e economicamente, realizar esse projeto em cerca de três anos, sob pena de temos obras mal planejadas, executadas às pressas e sujeitas a problemas de toda ordem, até mesmo de descontrole de custos e de qualidade, entre outros.

Assim, a opção pelo Maracanã seria a que ofereceria a melhor solução. Com essa decisão, lógica, racional e que otimiza investimentos, São Paulo pode receber os jogos de classificação, das oitavas e até das quartas de final com o Morumbi, que já está pronto e exige apenas adaptações.

O Brasil não pode correr o risco de soluções improvisadas. Os investimentos que devem ser alocados sob a rubrica Copa 2014 não são pequenos: para a reforma/construção dos 12 estádios, a estimativa é de cerca de R$ 6 bilhões; somando-se a isso as obras de infraestrutura chega-se a aproximadamente R$ 60 bilhões.

Enfim, essa é uma oportunidade de ouro e que não pode ? e principalmente não deve ? ser desperdiçada pela falta de planejamento e de ações previamente estudadas e definidas.

PRESIDENTE DA REGIONAL SÃO PAULO DO SINDICATO DA ARQUITETURA E

ENGENHARIA (SINAENCO/SP)

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