E mudou algo?

No começo do ano, ocorreu algo extraordinário, que se supunha inviável ainda por muito tempo: o todo-poderoso da CBF bateu em retirada, depois de duas décadas de comando absoluto. De uma hora para outra, percebeu que não dava mais para continuar, abandonou os preparativos para o Mundial de 2014, passou o bastão e se mandou para algum canto dos EUA. Lá curte o autoexílio.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2012 | 02h08

A sucessão, feita às pressas, não foi negligenciada. O trono ficou para José Maria Marin, que ocupava um dos cargos, em geral simbólicos, de vice-presidente da CBF. O político experimentado percebeu a oportunidade, aceitou o presente e saiu pra cá e pra lá, com Marco Polo Del Nero a tiracolo, alçado à condição de escudeiro e conselheiro-mor. E agora vem essa maçada da PF...

A renúncia do ex-mandachuva em princípio provocou impacto positivo semelhante, digamos, à ascensão de antigo operário à presidência de uma república. Houve quem notasse ventos revigorantes, mesmo com velhos personagens da cena esportiva a pegarem os papéis principais. A carência era tanta que o mínimo aceno de transformação soou como reformulação. O futebol pátrio viveria fase de distensão. Santa ingenuidade!

Mudou nada. Na prática se acentuou a movimentação em busca de poder. Os que hoje estão no comando trataram de mexer os pauzinhos. Para tanto, alteraram datas para a eleição na CBF, agora marcada para antes da Copa de 14 e não para 2015, como fora acertado anos atrás para garantir o trono do então mandatário. Ou seja, o calendário político, no caso, move-se ao sabor das conveniências do proprietário de momento na CBF. Amanhã, pode ser alterado de novo.

Quem segue os bastidores dá como certo pacto entre Marin e Del Nero, em que o primeiro passará as funções presidenciais para o segundo na hora ajustada, em 2014, 2015, sei lá... quando de fato houver o tal pleito. Ao mesmo tempo, estaria a correr por fora Andrés Sanchez, o virtual demissionário diretor de seleções. Apadrinhado do ex da entidade, influente entre os clubes, precisa ser desembarcado dessa nau. Pelo visto, não ficará a pé, pois pode ganhar cargo público na prefeitura de São Paulo, o que o manteria em evidência e não atrapalharia o projeto de alcançar a CBF.

Uma confusão dos demônios, não é? Tem mais. Há quem detecte em Ronaldo a alternativa para apaziguar espíritos inquietos e conciliar correntes divergentes. O rapaz despontaria como a cara diferente, a modernidade instalada na cúpula do futebol nacional. Será no duro? O outrora Fenômeno tem pinta de ser mais do mesmo. Impressiona como, em curtíssimo período, trocou a máscara de boleiro por aquela de cartola. A transição foi vapt-vupt! Ele se sente à vontade nessa esfera; absorvido pelo meio, não é peixe fora d'água. Nem leva jeito de que algum dia venha a incomodar o sistema.

Nesse rolo, Mano Menezes ficou com o papel de bode expiatório. Pagou mais pelas indicações e simpatias presumidas do que pelos resultados, que no fim das contas é que deveriam pesar na balança. Entrou pelo cano ao ser visto como entrave para um grupo de cartolas e suporte para outro. No fundo, a preocupação dele era só a de arrumar um time decente para o Mundial no nosso quintal.

A parte que toca o coração do torcedor é esta última: uma seleção competitiva, capaz de fazer a festa da final no Maracanã. E o nome preferido dos donos do poder é Felipão, que tem lastro para montar uma equipe forte. Assim como na administração, aí também não se espere revolução.

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