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E o esporte?

A presidente Dilma Rousseff deve estar esgotada e com a cabeça cheia de preocupações. A corrida para a reeleição foi decidida quase no olho mecânico e há muito o que fazer para justificar a vitória. Saúde, economia, educação, transporte, infraestrutura são temas prioritários na agenda dela, suponho. Não quero, portanto, importuná-la com assuntos menores - como se o que escrevo aqui chegasse ao conhecimento dela. Presunção.

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2014 | 02h01

Em todo caso, como o bate-papo fica entre nós - você e eu -, aproveito para reafirmar desejo já manifestado em diversas ocasiões neste espaço generoso que o Estado me abre. Seria extraordinário, edificante, animador, se o governo - sintam-se incluídos Estados e prefeituras - olhasse para o esporte como atividade importante para... saúde, educação, economia. Não o encarasse, nas mais diversas modalidades, como espetáculo, lazer, passatempo - enfim, algo ligeiro.

Esporte deve ter relação estreita com alegria e divertimento - ou pelo menos seria o ideal vê-lo assim. Mas é também fundamental como complementação da educação, como fator de integração social e como indústria de entretenimento. O futebol, para citar um exemplo que nos é muito caro, movimenta somas bilionárias, numa cadeia produtiva e de trabalho riquíssima. Engloba desde atletas e todo o aparato para prepará-los, até publicidade, indústria de material esportivo, direitos de transmissão por tevê, negociações em transferências, merchandising, seguro-saúde, transporte, segurança. Envolve milhões de pessoas.

E é, acima de tudo, um bem cultural de valor inestimável. A imagem do Brasil - para o cima ou para baixo - tem forte associação com esporte tão popular. E que, por isso, não suporta mais indiferença oficial. Ou no máximo discursos superficiais e de praxe. Ligados mais ao lugar-comum, ao folclore, próprios de coisas menores. Merece atenção, observação e acompanhamento.

Não se pode deixá-lo nas mãos de aventureiros, amadores primários, arrivistas, usurpadores de paixão e fé públicas. Não se pode fechar os olhos para transações nebulosas, dívidas astronômicas, calotes e repetidos pedidos de clemência e anistia fiscal. Raciocínio idêntico se aplica a outros esportes. Há muito dinheiro que some no ralo de má administração e corrupção.

A CBF não pode ser a única depositária de um patrimônio nacional, e utilizá-lo como bem entender. Não pode ocupar-se, preferencialmente, da seleção e voltar as costas para as agruras dos clubes e para campeonatos deficitários. Não pode prejudicar equipes porque a seleção tem compromissos a cumprir, pelo mundo, por acertos com empresários estrangeiros.

O governo precisa ouvir o que os boleiros têm a dizer - deu um passo, tímido, com encontros com o Bom Senso, porém foi pouco. Deve levar adiante o diálogo, palavra enfatizada pela presidente mais de uma vez após o segundo turno. Eles fazem o espetáculo, eles devem ser o centro de atenção. Não os tubarões que se apossam da bola.

Imagino, ainda, como seria o salto de qualidade, se os governantes detectassem na Olimpíada de 2016 uma oportunidade de nos transformarmos numa nação poliesportiva. Se se preocupassem em descobrir e incentivar valores, como complemento da educação, e não para inflar o número de medalhas verde-amarelas nos Jogos do Rio. Como seria dignificante que escolas e universidades investissem no esporte.

Sei que o discurso aqui é meio ingênuo, pra não dizer totalmente. Ceticismo talvez seja postura menos desgastante. Se o esporte não tomou tempo na campanha política, por que ganharia destaque agora? Mas, vá lá: prefiro acreditar em mudanças, sempre, mesmo tímidas. Melhor do que o conformismo, que nos paralisa e destrói esperança.

Copa do Brasil. Semifinais equilibradas, em teoria. O Cruzeiro é harmonioso, o Santos está embalado. O Fla oscila e é incógnita, o Atlético-MG se acertou na reta final do ano.

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