E o Saramago?

PELA IMPRENSA, NÃO FICARIA SABENDO DO SARAMAGO. O ASSUNTO É A REVOLUÇÃO FRANCESA

Verissimo, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2010 | 00h00

Se dependesse só da imprensa sul-africana ? ou, para não generalizar injustamente, dos jornais que tenho lido ?, eu nunca ficaria sabendo da morte do Saramago. Não vi nada a respeito, aqui. Leio principalmente o Star de Johannesburgo, que parece ser o maior e o mais sério, em contraste com a maioria de tabloides sensacionalistas no estilo inglês. E mesmo no Star as notícias internacionais são escassas. É uma imprensa mais paroquial que a brasileira. Se bem que não tem sobrado muito espaço nos jornais sul-africanos para outro assunto que não a Copa e as agruras e esperanças da seleção. Saramago? Em que time joga?

O assunto do momento é a segunda Revolução Francesa, o motim dos jogadores da França, os sem-culotes, contra a aristocracia, a chefia da seleção. A insubmissão não é irreversível, nenhuma bastilha ainda foi atacada, mas reina o caos entre os franceses. Tudo teria começado quando Anelka se referiu à suposta profissão da mãe do técnico Domenech no vestiário e a notícia vazou. A revolta dos jogadores é contra o vazamento e em solidariedade ao Anelka, que foi mandado embora. Minha teoria é de que a causa de tudo é a maldição irlandesa. Depois que o gol feito com a mão pelo Henry desclassificou a Irlanda e classificou a França para a Copa, os franceses vivem sob praga dos perdedores. A Irlanda é país de tradição mística. Todos os seus deuses e demônios foram mobilizados contra a França, e são os responsáveis pelo caos. Ou então a explicação psicológica: desde a mão do Henry a França convive com sentimento de culpa. Eles querem ser castigados.

As opiniões políticas e antirreligiosas do Saramago não eram mais importantes que sua literatura, mas foram mais discutidas. Ele tinha toda a razão em culpar a irracionalidade religiosa por muitos dos males do mundo, como a guerra entre monoteísmos que há séculos inquieta a humanidade. Para defender o ateísmo do Saramago, convoco outro ateu controvertido, o filósofo Bertrand Russell, que num trecho citado por George Steiner num livro que eu trouxe para ler entre os jogos, diz: "Frequentemente penso que a religião, como o Sol, extinguiu as estrelas com menos fulgor, mas não menos beleza, que brilham sobre nós das trevas de um universo sem deus. O esplendor da vida humana, tenho certeza, é maior para aqueles que não se deixam ofuscar pela irradiação divina; e o congraçamento humano parece se tornar mais íntimo e terno com o sentimento de que somos todos exilados numa mesma praia inóspita."

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