''É possível pódio para Fabiana''

Ucraniano acompanhou treinos da saltadora brasileira e a considera candidata a conquistar medalha em Pequim

Entrevista com

Amanda Romanelli e Heleni Felippe, O Estadao de S.Paulo

29 de março de 2008 | 00h00

Maior astro do salto com vara de todos os tempos, o ucraniano Sergey Bubka dá uma boa notícia aos torcedores brasileiros: Fabiana Murer, medalha de bronze no Mundial Indoor, em Valência, é candidata ao pódio olímpico em Pequim. Com a autoridade de quem ainda é dono do recorde mundial da prova - saltou 6,14 metros em 31 de julho de 1994 -, Bubka viu a brasileira treinando e competindo no centro de atletismo que mantém em Donetsk, na Ucrânia, no mês de janeiro. Bubka também aposta que Yelena Isinbaeva pode chegar à fantástica marca de 5,10 metros (a russa é a atual recordista mundial, com 5,01 m).Bubka quebrou o recorde mundial de salto com vara 36 vezes - 18 outdoor e 17 indoor - e cada centímetro superado lhe rendia bônus de US$ 50 mil ou mais.Prestes a completar 45 anos (faz aniversário em 12 de abril), o ucraniano é hoje um ativo dirigente. Acumula vários cargos: é presidente do Comitê Olímpico Ucraniano, vice-presidente da Associação Internacional de Federações de Atletismo (Iaaf), membro do Comitê Executivo e presidente da Comissão de Atletas do Comitê Olímpico Internacional (COI), além de já ter sido membro do Parlamento Ucraniano. Sua última missão foi presidir a comissão organizadora dos Jogos Olímpicos da Juventude que, em 2010, reunirá cerca de 3.500 atletas, entre 14 e 18 anos, em Cingapura.Mesmo diante de tantas atribuições, Bubka abriu um espaço na alentada agenda para atender o Estado. Em conversa telefônica e, depois, por e-mail, falou sobre vários assuntos ligados ao esporte.O senhor é o recordista mundial do salto com vara há 14 anos. O dia em que essa marca será batida está próximo? Tem algum candidato para a façanha?Eu tenho certeza de que este recorde será quebrado, mas é muito difícil, para mim, dizer quando. Também não saberia dizer qual saltador seria capaz de ultrapassar o recorde. (A melhor marca do ano é do australiano Steven Hooker, com 6,00 m. Campeão olímpico em Atenas/2004, o americano Timothy Mack saltou 5,95 m.)O senhor viu os brasileiros Fabiana Murer e Fábio Gomes dos Santos, atuais recordistas sul-americanos, treinando em Donestk. O que pode dizer sobre eles?Não tenho dúvida de que são talentosos. Acho que têm força e energia para melhorar seus saltos ainda mais. Foi um prazer tê-los recebido entre os participantes do "Zepter - Estrelas do Salto com Vara", que organizo em Donetsk anualmente.Especificamente sobre Fabiana: o que podemos esperar dela?Acho possível que ela consiga um pódio olímpico.E Yelena Isinbaeva? Aonde ela ainda pode chegar?Yelena é uma atleta fantástica. São poucas pessoas que, como ela, têm a capacidade de atrair torcedores aos estádios e milhões de pessoas para a TV. É ótimo que ela esteja progredindo porque, dessa maneira, continuará popularizando o atletismo e, particularmente, o salto com vara. E acho que ela é capaz de saltar 5,10 metros.O senhor é um homem com muitas responsabilidades. Sua vida, hoje, é muito diferente daquela que tinha como atleta?Cada atividade tem suas particularidades. Quando eu era atleta, os resultados dependiam só de mim. Para ser dirigente, dependo muito do trabalho em equipe. Anos depois de ter abandonado o esporte, estou completamente adaptado às minhas novas funções e minha experiência como atleta é muito útil.Como surgiu a idéia de organizar uma Olimpíada para jovens?O envolvimento da atual geração com os esportes tem sido um problema, porque há uma preferência pelo esporte ?virtual?, dos computadores. E, por causa do baixo nível de atividade física, surgem problemas de saúde, como a obesidade. Por isso, uma organização como o Comitê Olímpico Internacional não pode deixar de agir e tomou a decisão de criar esses Jogos.Que mudanças vocês esperam para o jovem comum?Temos certeza de que irá aumentar o interesse e a motivação dos jovens pelos esportes. Mas ninguém quer que todos virem campeões olímpicos. A cultura esportiva faz com que uma pessoa se torne mais saudável e forte. O desequilíbrio no desenvolvimento das crianças é um grave problema social.E para os jovens atletas?Será uma motivação. Não temos muitas competições de alto nível para jovens. E talvez pela falta de experiência em torneios importantes, muitos atletas promissores não desenvolvem todo seu potencial quando adultos. Esta Olimpíada dará a esses atletas mais chances de competir e de serem reconhecidos.O que o senhor pensa sobre o futuro do atletismo, especialmente sobre o doping?O atletismo é o mais nobre dos esportes e, ano após ano, ganha mais admiradores. O problema do doping não é apenas do atletismo. Mesmo assim, a Iaaf é uma das federações que mais lutam pelo esporte limpo - investe US$ 3 milhões por ano na luta contra o doping - e é a principal parceira da Agência Mundial Antidoping (Wada) na proposta de aumentar a suspensão de dois para quatro anos para atletas flagrados em testes. Ainda assim, de acordo com estatísticas, o número de amostras positivas no atletismo não ultrapassa 1,5%. Qual é a importância de países emergentes, como o Brasil e a Ucrânia, no desenvolvimento do esporte?É nítida a interação dos países em desenvolvimento com o esporte. E o investimento que fazem na construção de infra-estrutura esportiva não apenas na revelação de atletas, mas também na economia. Um exemplo é o fato de a Ucrânia ser escolhida como sede (em conjunto com a Polônia) para a Eurocopa de 2012. Nosso país já vê a possibilidade de evoluir mais rápido economicamente. Estou convencido de que o esporte é o caminho para que nações em desenvolvimento consigam evoluir, caminhando para a estabilidade social e econômica.

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