Imagem Roberto DaMatta
Colunista
Roberto DaMatta
Conteúdo Exclusivo para Assinante

E se o mundo fosse como o futebol?

Ainda ontem fiz essa pergunta no Niterói's Bar, onde tenho assistido às partidas da Copa com direito a replay, a doses de Joãozinho Andarilho e a ver todos os jogos simultaneamente. Nele, posso fazer ou desfazer o mundo, embora tenha de aceitar o resultado dos jogos. Futebol é realidade, crônica é fantasia.

ROBERTO DAMATTA, O Estado de S. Paulo

28 de junho de 2014 | 02h00

Levantei o paralelo logo no inicio da Copa. Durante o jogo Estados Unidos x Alemanha, retomei a comparação, porque a torcida americana não teve pudor de convidar super-heróis para apoiar seu time. Ela está certa: super-heróis só podem ficar na torcida. Se Batman fosse escalado, ocorreria com ele o excesso de confiança e de ingenuidade que leva à derrota e à desclassificação. Esses caras só existem no mundo. O futebol tem a capacidade de desfazer supercraques com a mesma facilidade que os constrói.

Deixemos os craques. Falemos da comparação com o mundo. No mundo e no futebol, não há justiça... Ou racionalidade... Ou senso de proporção. O melhor é derrotado, e o pior leva a taça. Com ou sem grandes jogadores. Mas tem uma coisa... No mundo, existem mais disfarces do que no campo - que, como no palco, exige desempenho.

Pensem nos políticos: vocês acham que eles poderiam ser jogadores de futebol ou mesmo técnicos? Só se for de time de botão... Nem de time de botão. Muitos nem sabem como é um campo. Odeiam o jogo que, acreditam, tira o povo do seu controle. O futebol é ópio do povo porque, no futebol, o homem comum se iguala ao "doutor" e ao "patrão". É uma das poucas linguagens comuns que temos no Brasil. É uma das poucas coisas que escolhemos livremente. Você tem razão. O futebol coloca o povo em foco, transformando-o num supercrítico. Nele, o povo exige resultados. Se isso ocorresse na política, o Brasil seria bom de viver, mas não seria tantas vezes campeão de futebol. Discordo. Acho que pode ser as duas coisas.

Pergunto: seria possível futebol populista e aparelhado por um partido ou família? No gol, o pai; na bequeira, os tios. A linha média feita de sobrinhos e a linha de frente, pelos filhos, com o queridinho da mamãe sendo centroavante matador, como dizia Lula, totalmente identificado com o fazedor de gols. É, mas vejam o time que Lula montou e a técnica que escolheu! Ela nem sabe quem é a bola, odeia diversão e, sobretudo, futebol. Talvez. Certo é que são dois mundos diversos em muita coisa, mas têm muito em comum. O talento. A coerência: joga-se para um time de cada vez. A honestidade do desempenho - a garra. A obediência a regras e normas. Não pode morder, nem embargar juridicamente derrotas.

A punição é indiscutível e rápida quando surge um canibal. Algo que - finalizou o mais bêbado - liquidaria a classe desses políticos pernas de pau e sem coração. Ricos com o nosso dinheiro, cretinos e narcisistas. Seria bom vê-los, ao lado de alguns membros do STF, numa copa futebolística. Seria uma copa de merda, disse o mais afoito e desbocado de todos.

Tudo o que sabemos sobre:
ROBERTO DAMATTACopa 2014

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.