Pete Kiehart/New York Time
Pete Kiehart/New York Time

E-sports adota métodos tradicionais nos treinamentos

Menos pizza e mais ioga é a filosofia da Origen, equipe que disputa a Liga das Lendas, a importante liga de games da Europa

Andrew Keh, THE NEW YORK TIMES

09 de abril de 2019 | 04h30

O agachamento e a flexão de pernas eram mais difíceis do que pareciam e, após uma poucas séries, Alfonso Aguirre abraçou os joelhos e tentou se recompor. Em novembro passado, Aguirre, jogador de videogame profissional espanhol, juntou-se ao grupo de cinco homens da Origen, uma equipe da Liga das Lendas, a mais importante liga de games da Europa. Os jogadores foram informados de que o grupo treinaria de um modo um pouco diferente do que estava acostumado. E ali estavam os cinco, jovens que ganham a vida praticamente sentados em frente a computadores, suando no treinamento de uma hora em um ginásio lotado. 

“Acho que vou vomitar os flocos de aveia”, disse Aguirre, conhecido na comunidade gamer como Mith (Mito). “Estou morrendo.” Há alguns anos, jovens analistas pilotando computadores iniciaram uma revolução em tradicionais ligas esportivas. O modo como as coisas vinham sendo feitas, diziam, nem sempre é o melhor.

Hoje, ecos dessa transformação chegaram ao crescente mundo profissional dos e-sports (jogos eletrônicos), com os jogadores sendo levados através de uma nova fronteira – estranhamente, com antigos métodos físicos de esportes tradicionais. O debate sobre se jogadores de videogame podem ser considerados atletas pode não acabar nunca. Enquanto isso, porém, os gamers estão cada vez mais agindo como atletas. 

A Origen é uma das duas equipes mantidas pela Rfrsh Entertainment, uma empresa de e-sports com sede em Copenhague, capital da Dinamarca. Dois anos atrás, a organização contratou como diretor esportivo Kasper Hvidt, ex-capitão da seleção de handebol da Dinamarca. Hvidt , de 43 anos, não tinha nenhuma experiência em videogames – e esse era ponto.

Nos últimos anos, os e-sports vêm chegando ao mundo das competições, atraindo novos fãs, novos patrocinadores e novos investimentos. Os grandes profissionais têm salários anuais de seis dígitos e ganham ainda mais na assinatura de contratos e em prêmios em dinheiro. Apesar disso, como observou Hvidt, o preparo profissional continua sendo amadorístico. 

Comer direito, dormir direito, exercitar-se, agradar aos patrocinadores – há gerações essas ideias estão ligadas aos esportes tradicionais. Nos e-sports, elas são vistas quase como extravagantes. “Os jogadores não se veem como seres físicos”, disse Hvidt, campeão pela Dinamarca do Campeonato Europeu de Handebol de 2008. “Embora isso pareça óbvio, para eles não era.”

A Rfrsh tem argumentos convincentes. A outra equipe da empresa, Astralis, que compete internacionalmente nos jogos de tiro em primeira pessoa Counter-Strike: Global Offensive, estava havia quase um ano sem ganhar um torneio quando Hvidt assumiu o cargo, em meados de 2017. Em 2018, a equipe ganhou US$ 3,7 milhões em prêmios, um dos melhores resultados anuais conseguidos por qualquer equipe em qualquer modalidade de e-sports.

Assim, a Origen entrou neste ano no esquema de aperfeiçoamento atlético. Ainda no ano passado, um dia típico dos jogadores pressupunha um exagero de drinques energéticos, fast food e problemas físicos não resolvidos. Hoje, os dias são intercalados com sucos proteicos, esteiras de ioga e exercícios de respiração lenta. 

Os efeitos dessas mudanças, segundo a própria equipe, são visíveis: após começar a atual temporada com um recorde de 1-4, a Origen deu uma arrancada, vencendo 11 dos últimos 13 jogos, terminando a temporada em segundo lugar, garantindo lugar nos playoffs. “São pequenas coisas”, disse Fabian Broich, técnico assistente da Origen, “mas elas funcionam e no longo termo tornam o time mais estável emocionalmente e mais focado”. 

Na Rfrsh, Avidt montou uma equipe de trabalho – treinador físico, psicólogo, massagista, médico e nutricionista – e estabeleceu um programa de vida para os jogadores que combina pesquisas científicas, antigas lições do esporte e simples bom senso. Broich, de 28 anos, ex-jogador profissional de futebol da Alemanha, serve de ligação entre a administração da equipe e os jogadores, aplicando os princípios na prática.

Os jogadores, que vêm de cinco países europeus e têm idades entre 18 e 24 anos, vivem na Dinamarca e voam todos os fins de semana para Berlim, onde os jogos da Liga das Lendas são gravados em frente a uma ruidosa plateia.

Em Copenhague, eles têm de usar bicicleta (regra que de início odiavam) e têm aulas de aptidão física e ioga durante a semana. Às segundas-feiras, reúnem-se com o psicólogo da equipe para uma sessão de “deixe aqui seus problemas”. 

Toda manhã, a equipe se reúne para o desjejum no apartamento do técnico assistente Broich, um ritual criado em parte para tirar da cama os jogadores – notórios notívagos – num horário razoável. As outras refeições são fornecidas sob orientação do nutricionista.

“Antes, eu ia para a cama às 5 da manhã e dormia até as 2 da tarde, comendo no McDonald’s duas vezes por dia”, disse Patrik Jiru, de 18 anos, da República Checa, jogador da Origen, enquanto comia salmão e omelete de vegetais num recente café da manhã. Após o desjejum, os jogadores vão de bicicleta ao ginásio de esportes para exercícios físicos básicos e uma sessão de terapia física. 

“Na última vez que fizemos isso, meu corpo doeu por três dias”, disse o dinamarquês Jonas Andersen, de 24 anos, jogador da Origen, enquanto se exercitava com pesos. Mikkel Hjuler, treinador físico que trabalha com a equipe olímpica dinamarquesa, orienta o grupo em exercícios específicos para gamers. Os atletas envolvem o punho em tiras elásticas e flexionam os dedos. O treinador também lhes ensinou um exercício para o pescoço usado por pugilistas. Eles continuam, claro, treinando muitas horas por dia em computadores, mas mesmo nisso estão usando elementos de esportes tradicionais.

Antes de um recente treinamento de combate eletrônico, no QG da Rfrsh, Broich distribuiu pílulas de magnésio e barras de proteína (ele também tem em seu arsenal óleo de krill e vitamina D).

Mais tarde, ele fez um espesso shake de suplementos nutricionais – moringa, matcha, maca, chiorella, açaí e meia dúzia de outros. Após o treino, a equipe deitou-se em esteiras de ioga e fez alongamento. 

Trevor Henry, de 31 anos, comentarista de rádio da Riot Games, a empresa por trás da Liga das Lendas, admirou-se com a rapidez com que o cenário dos games está se profissionalizando. “Há poucos anos, jogadores profissionais ficavam de 10 a 12 horas diárias em frente ao computador e comiam fast food todos os dias”, disse ele. 

Henry deu mais detalhes de como os gamers viviam. “Embalagens de pizza se empilhavam nos quartos. A roupa suja quase nunca ia para a lavanderia. Vou ser brutalmente honesto: as camisetas do uniforme que as equipes usavam durante 24 semanas por ano não conheciam detergente.” 

Esse estilo de vida – em parte monástico e em parte república de estudante – não só era aceito, mas era tido como a verdadeira razão do sucesso dos jogadores. Mas essa visão vem sendo questionada e, na Europa, a mudança da Liga das Lendas neste ano para dez equipes, num modelo de franquia semelhante ao das ligas esportivas americanas, incentivou outras organizações a investirem mais no longo prazo. 

No ano passado, Fabien Devide, presidente da Team Vitality, uma organização francesa de games, passou sete meses mergulhado no alojamento da equipe da organização na Liga das Legendas, em Berlim.  “Era um hospício”, disse ele, descrevendo a mistura entre vida pessoal e vida profissional dos jogadores. “Isso pode se transformar rapidamente num ambiente tóxico.” 

Fabien Devide disse que a Tem Vatality pretende alojar os jogadores em apartamentos separados no próximo ano. Ele afirmou que, seguindo o exemplo pioneiro da Rfrsh, sua organização tem planos de abrir um centro de treinamento em Paris, na França, e contratar um diretor esportivo, como Hvidt, para criar um programa baseado em conceitos esportivos tradicionais. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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